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Procurando entender o FSM, dez anos depois

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A realização em Porto Alegre, em fim de janeiro de 2010, do Seminário Internacional “10 Anos Depois: Desafios e Propostas para um Outro Mundo Possível” - em que se fará um balanço do que foi até agora o Forum Social Mundial e das perspectivas que se apresentam para a continuidade da luta em que ele se insere - está provocando necessariamente uma importante reflexão de todos que vem se empenhando nesse processo.

Aqueles que lançaram a ideia do Fórum Social Mundial - como contraponto ao Forum Economico Mundial de Davos - e em seguida a concretizaram, não imaginavam que ele ia ganhar as proporções que ganhou. Mas o FSM surpreendeu seus proprios organizadores, ao atrair um número crescente de ativistas políticos e intelectuais, que já tinham superado a perplexidade provocada pela queda do Muro de Berlim em 1989. Este acontecimento significara o desmoronamento da longa tentativa de implantação de um regime socialista na União Soviética; o neoliberalismo tomara as rédeas da globalização; e o Fórum parecia criar novas condições para enfrentar o sistema capitalista. Um dos temas das discussões passou então a ser o adequado encaminhamento dessa iniciativa. E a partir de 2004, em Mumbai, todos os Forums Mundiais realizados comportaram a organização de debates especificamente sobre seu futuro.

Mas o mundo mudou muito nestes dez anos que se passaram. As contradições eram outras quando o Forum foi pensado e proposto. Até o Forum de Davos não é o mesmo. Inclusive Lula - clara expressão do tipo de resultado eleitoral que os participantes dos Foruns poderiam almejar - irá este ano até lá. Já o fizera em outras vezes, como em 2003, logo depois de ser eleito, para desconforto dos organizadores do Forum de Porto Alegre, naquele ano. Mas desta vez ele irá a Davos para receber um prêmio...

Em suma, é preciso dar mais profundidade e densidade à discussão sobre nossas lutas. O Seminário de Porto Alegre tem exatamente esse objetivo. E o presente texto pretende ser uma contribuição para essa discussão.

Dúvidas e questionamentos

Caberia relembrar, de inicio, os varios tipos de questões que foram sendo levantadas na caminhada do FSM.

Sua proposta se inseria de fato no processo de multiplicação das mobilizações de resistência e protesto contra o dominio do mundo pelos interesses do capital, que tinham começado alguns anos antes do seu lançamento. Uma delas, ocorrida em Seattle em 1999, contra as decisões da Organização Mundial do Comércio, ganhara grande repercussão, mas elas visaram também o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, o G8. Era o movimento “anti-globalização”, multifacético e diversificado, que surgia. Com a perspectiva aberta pelo slogan do FSM - “outro mundo é possivel” - começou-se tambem a falar, nesse movimento, de “outra globalização” - da solidariedade e não do capital - e ele passou a ser chamado de “movimento altermundialista”.

Aí pelas tantas, um certo desânimo começou a aparecer dentro dele, apesar da repressão crescente que sofria mostrar que o sistema já sentia a necessidade de bloquear esse questionamento. Mas não se via muito claramente que rumos ele deveria tomar e como atuar, frente à força da globalização neoliberal. E ao não se fazer a necessária distinção entre esse movimento e o FSM, muitos foram levados a acreditar que era o proprio FSM que começara a se esvaziar. Essa tese ganhou corpo quando o Forum Social Mundial realizado em Nairobi, em 2007, atraiu menos da metade dos participantes do Forum anterior.

Ao mesmo tempo, já começara a surgir um certo cansaço entre os organizadores desses Fóruns, numa atividade que parecia tornar-se repetitiva e que custava muitos recursos, que deixavam de ser aplicados em outras ações. Agravado pelo entendimento de que todos estavam obrigados a participar de tudo que se fizesse, esse cansaço levou até a se dizer que o FSM já tinha cumprido seu papel e chegara o momento dele sair de cena, para que a ação direta contra o neoliberalismo passasse a ocupar o centro das discussões. Só o Forum de 2009, em Belem, interrompeu essa tendência desmobilizadora, ao atrair de novo o número recorde de 150.000 participantes alcançado em 2005 em Porto Alegre.

Outros participantes, animados com os últimos resultados eleitorais na América Latina, passaram a considerar que o mais eficaz para a mudança era a conquista de governos, atrelando a eles os movimentos sociais. As derrotas eleitorais significativas da esquerda em paises como a Italia e a França, em que ela fora forte, levantavam dúvidas sobre essa orientação. Mas para seus defensores o FSM precisaria mobilizar a sociedade para esses objetivos. Nessa perspectiva ganhou também impulso a discussão sobre a participação dos partidos, instrumentos incontornáveis da luta pelo poder político, nos encontros do FSM.

Ao mesmo tempo, crescia a angústia por resultados palpáveis na luta contra o dominio neoliberal. Para muitos participantes do FSM ele deveria assumir um protagonismo político enquanto Forum, e lançar ações coletivas para superar esse dominio, definindo o caminho para se chegar ao “outro mundo possivel”. E até elaborar um novo projeto de sociedade - o “outro mundo” - como aquele quase pronto e acabado da luta pela construção do socialismo.

Esta proposta ganhou mais corpo quando o capitalismo parecia estar prestes a ruir, com a crise financeira de 2008-2009, que por assim dizer coroava as diferentes crises que vem enfrentando. Chegou-se a pensar que tinha chegado o momento da “virada” - o Forum de Davos estava se realizando, em 2009, em clima de velório. Esta visão ficou bem explícita com o surgimento da frase “nossas respostas para as crises”, como um dos slogans propostos para unificar o conjunto de Foruns que se realizariam ao longo de 2010, no formato adotado para o Forum Social Mundial deste ano.

O sistema vem demonstrando no entanto uma enorme capacidade de recuperação frente às suas crises - ou de adiamento da solução dos problemas que estas denunciam. E tornam-se visiveis os limites da eficácia das mobilizações visando influenciar as decisões dos dirigentes políticos nas conferências internacionais, como recentemente ocorreu na discussão sobre o clima em Copenhagen. Novas dúvidas surgem portanto sobre os caminhos a trilhar pelo altermundialismo e pelo FSM.

O mínimo que se pode dizer, portanto, nesta altura da partida, é que as cartas se encontram bastante embaralhadas. Recuperando um pouco da memória do caminho percorrido talvez seja possivel ver com mais clareza que caminho percorrer agora.

As intuições iniciais e seus desdobramentos

As intuições iniciais dos organizadores do primeiro Forum eram na verdade bastante diretas: organizar um Forum Mundial Social e não unicamente Econômico, como alternativa e contraponto a Davos; entrar numa fase propositiva de luta; reforçar a ação da sociedade civil - novo ator político que surgira - pelo rompimento das barreiras que separavam seus diferentes componentes.

Mas o sucesso da iniciativa e a experiência dos primeiros Foruns despertaram novas intuições, mais complexas: a opção pela auto-organização das atividades nos Foruns; a afirmação do respeito à diversidade como principio básico; a garantia da horizontalidade e da igualdade de visibilidade na organização das atividades e nas relações dentro do Forum; a recusa a se constituir em “movimento dos movimentos” que “representasse” a sociedade civil; a recusa a ter dirigentes, um documento final conclusivo e posicionamentos do Forum enquanto Forum, que levariam a disputas de poder dentro dele; a necessidade de formular uma Carta de Princípios que incorporasse todas essas opções.

As orientações metodológicas que delas decorreram se distanciaram no entanto pouco a pouco de suas justificativas, e passaram a ser defendidas ou atacadas sem levar em conta as razões de sua adoção.

Considero essencial, para poder esclarecer as coisas, recolocar, previamente, um tema que é recorrentemente discutido dentro do Fórum: é ele um espaço ou um movimento? Em texto em que discuti essa diferença, em 2003, tomei claramente posição pelo FSM-espaço.

Espaço e movimento

Ao defender essa opção, disse que FSM era um espaço aberto a todos que considerassem que é preciso superar o sistema econômico que hoje domina o mundo e que nela quisessem se encontrar, livremente. Eles viriam a esse espaço com o objetivo de expor, uns aos outros, suas críticas, denúncias e avaliações sobre a necessidade de construir “outro mundo” e sobre as formas e caminhos que o tornam “possivel”, assim como relatar as lutas que desenvolvem com esse objetivo e as propostas de ação concreta em torno das quais se proporiam a se unir a outros. Um tal espaço teria que ser aberto de tempos em tempos, por iniciativa de organizações da sociedade civil que se associassem para abrí-lo.

Eu dizia então que isto dava ao FSM uma natureza diferente daquela de um movimento. O espaço aberto pelo FSM existiria por si mesmo, como uma realidade física. Enquanto um movimento de luta pela superação do neoliberalismo seria um conjunto determinado de pessoas, organizadas em torno de objetivos especificos por elas discutidos e adotados - de forma mais democrática ou menos democrática - para realizar, sob o comando dos seus dirigentes, ações de intervenção nos processos vividos pelo mundo, cada um de seus membros se dispondo a cumprir disciplinadamente as funções e tarefas a ele atribuidas nos planos de ação do movimento.

Hoje existe claramente um movimento de luta pela superação do neoliberalismo: o altermundialismo. Seu carater multifacético e diversificado lhe dá caracteristicas diferentes de movimentos como os descritos em minha argumentação. Mas não é a mesma coisa que um “espaço físico”. A questão pode então ser colocada em termos novos: cabe distinguir o FSM do movimento altermundialista?

FSM e movimento altermundialista

Para responder a esta questão, acho necessário analisar a relação que pode existir entre o “espaço” que pode ser oferecido pelo FSM e a ação altermundialista que pretende transformar o mundo.

Uma das críticas feitas ao FSM é de que espaços de encontro como os que ele oferece podem ser uteis e até interessantes, e mesmo simpáticos e construtivos, mas absolutamente não bastam, se quisermos realmente mudar o mundo. Uma das formas de exprimí-la é dizer que “não se pode ficar eternamente discutindo e discutindo, é preciso passar o mais depressa possivel à ação”1. Como uma das mais vigorosas no processo Forum, esta crítica se apoia tanto na tese que vê o FSM se esvaziando, a que já me referi, como na angústia pela urgência da mudança, que também já indiquei.

Ela se reforça tambem com a argumentação igualmente citada de que a realização dos Foruns Mundiais e mesmo regionais exige uma elevada mobilização de recursos - a ser feita tanto pelos organizadores como pelos próprios participantes, obrigados às vezes a longas viagens e a viver por sua cont os dias do Forum - e que há outras demandas de recursos que podem ser prioritárias para a ação política dos diferentes movimentos e organizações.

A ação e a reflexão

A compreensão de que espaço e movimento tem naturezas diferentes tem a ver com outra questão que parece tambem essencial: a diferença entre reflexão e ação. Esta diferença se dilue quando se recusa a discutir “demais” para poder passar logo à ação. E todos sabemos que ambas - ação e reflexão - são absolutamente necessárias, na perspectiva de mudança do mundo em que nos situamos: reflexão sem visar a ação é exercício intelectual descomprometido e ação sem prévia e concomitante reflexão é irresponsabilidade.

Se assim o entendermos, fica claro que o FSM-espaço pode ser entendido como um instrumento imprescindivel ao movimento altermundialista, a serviço de sua ação: ocasiões e espaços que se abrem para que ele possa rever e avaliar o que está sendo feito; para resituar - e até para redefiní-los - os objetivos a serem perseguidos pela ação nas conjunturas sempre novas que se formam; para repensar a eficácia dos modos e meios de ação que estão sendo empregados e criar outros meios ou valorizar novas experiências. Um movimento que não abra espaço a essa reflexão evidentemente se condena a se estiolar.

É claro para todos que a construção do “outro mundo possivel” não será um resultado automatico do pensamento e da fala dos intelectuais - por mais “orgânicos” que sejam - que venham aos Foruns discutir os temas que trabalham. Mas se o que vai mudar o mundo é a ação, a reflexão sendo somente instrumental nesse processo, não é também automático que a mudança resulte das articulações e alianças feitas durante os Foruns pelos dirigentes das organizações e movimentos sociais, que neles se reunam para se reconhecer mutuamente, identificar convergências, construir alianças e formular planos e campanhas de ação conjunta.

Todos sabemos que a mudança virá da ação concreta da sociedade, se esta assumir esses planos e campanhas: denunciando, reivindicando, pressionando as políticas públicas, criando novos instrumentos e instituições, modificando estruturas e sistemas de decisão e de produção e acesso a bens, serviços e saberes, criando novas formas de atendimento das necessidades sociais, elegendo governantes comprometidos come essas mudanças, afastando dirigentes contrários aos interesses de todos e desmontando estruturas e normas jurídicas que reforcem ou mantenham a dominação e a opressão, assumindo ela mesma, enquanto sociedade, novos comportamentos no dia a dia, nas mentes e nos corações, como trabalhadores e consumidores, tomando plena consciência de seus direitos e deveres de cidadania, fazendo prevalecerem novos valores na vida social.

Reflexão contínua e à distância

Não será preciso dizer que no interior e ao largo da ação transformadora do movimento altermundialista sempre terá que existir uma reflexão contínua sobre ele mesmo, levada por seus intelectuais, dirigentes e militantes. Mas será também necessária um reflexão que seja feita por assim dizer fora dele - mas não desligada dele - como uma espécie de tempo e momento de parada em que se toma distância da ação concreta para melhor entendê-la. Mais ainda pelo fato desse movimento não ser monolitico mas sim composto por uma multiplicidade diversificada de movimentos e organizações, visando as mais diversas modificações da realidade social, política e econômica.

Uma sem a outra - ação e reflexão, e tanto a reflexão interna continua como a que se distancia para vê-la melhor - não têm sentido nem muita possibilidade de vida, se o que buscamos é transformar o mundo. Misturá-las, indiferenciando-as num amálgama informe, é um tiro que se dá nos próprios pés.

Em outras palavras, para que as mudanças ocorram de fato, tudo a ser feito pode e deve ser discutido, rediscutido, proposto - nunca imposto - e assumido. E se não se vê claro é preciso discutir ainda mais. Um pouco de clareza já será muitas vezes suficiente, porque não há melhor forma de enxergar do que experimentar, se a reflexão continuar, acompanhando a prática. Mas é preciso se lançar na ação sabendo minimanente o que se quer, os obstáculos que surgirão, as possibilidades que se criarão, em vez de se atirar nela como num ímpeto de loucura, ou simplesmente repetindo práticas que podem estar esgotadas ou defasadas com a realidade - como soe ocorrer muitas vezes na ação política.

Por outro lado, obviamente não se vai parar de agir para pensar. A ação é necessariamente contínua - inclusive porque deixar de agir já é uma forma de agir. Já é umlugar comum dizer que o mundo não para de se transformar, com nossa intervenção ou sem nossa intervenção. Mas quanto mais dificeis os desafios - e o FSM assumiu um tremendo desafio: superar o neoliberalismo - mais se torna fundamental parar para pensar, por pouco tempo ou por mais tempo, ao longo da longa luta que temos pela frente.

Nessa perspectiva fica claro o caráter de instrumento que tem o FSM e não se pode confundir um instrumento com a ação a que ele pretende servir. Mas ele não é um fim em si mesmo. Ora, para se expandir por todo o mundo, em todos os niveis da ação transformadora, para que consiga reverter o dominio sob o qual o mundo hoje se encontra, o altermundialismo está mais do que necessitado desse instrumento. Os encontros do FSM podem assim funcionar como espaço de reflexão em que se possa redirecionar, se e quando necessário, a atuação desse movimento, assim como incubar sempre novas iniciativas políticas.

Talvez por ai comecemos a encontrar o que constituiria, de fato, a “vocação” desse processo dentro do altermundialismo, para que a “reflexão à distância” que ele permite seja feita, e não isoladamente mas juntamente com os outros que estão engajados nas mesmas lutas.

A metáfora da “praça pública”

Procurando entender melhor essa “vocação”, reencontrei uma imagem que apresentei no mesmo texto em que defendí, em 2003, a opção FSM-espaço. Essa imagem - na qual o FSM podia ser visto como uma praça pública, aberta - levantou então suficientes dúvidas para que eu a deixasse de lado. Mas ela me reapareceu claramente agora, despertada pela leitura de alguns dos textos que estão circulando em preparação ao Seminario de Porto Alegre.

Trata-se evidentemente de uma metáfora. Considerei que deveria retomá-la porque me pareceu que ela fornece uma chave explicativa que ajuda a desembaralhar as cartas. Espero que meus eventuais leitores não vejam essa retomada como um retorno a um passado bem superado e, condescentes, consigam ler até o fim este meu texto.

Em minha descrição eu dizia que essa “praça”, sendo pública, não teria um dono, como um terreno particular. Ela pertenceria à coletividade. Nem poderia ser apropriada por este ou aquele segmento da sociedade, por exemplo como local de propaganda de uma determinada organização politica, ou de culto ou proselitismo de uma determinada opção religiosa. Ninguem poderia escolher portanto quem poderia entrar na praça nem decidir que atividades nela seriam ou não permitidas. Seriam somente estabelecidas as condições gerais de seu uso e o desenvolvimento harmonioso das atividades nela realizadas ficaria por conta da correponsabilidade de todos e cada um.

Entre essas condições gerais, figuraria a de que todos que viessem à praça teriam que se relacionar horizontalmente, no respeito mútuo, procurando resolver pelo consenso eventuais dificuldades de convivio, sem que uma “direção” tiversse que avaliá-los ou controlá-los, nem que um “patrulhamento” coletivo as classificasse ou julgasse. Por outro lado, nenhum dos frequentadores da praça poderia pretender impor aos demais seus pontos de vista, análises ou propostas, que poderiam apresentar do modo que achassem mais conveniente. Eles teriam que se submeter à aceitação ou não, pelos outros, da “sua verdade”. Cheguei a comparar essa situação com o que ocorre quando alguem, numa praça pública, tenta convencer outros de suas idéias. Arrisca-se a ficar ridiculamente sozinho - falando, cantando ou gesticulando, do alto da elevação do terreno, da construção ou da árvore em que tenha subido para se tornar mais visivel.

A “abertura” da praça

A primeira questão que se levantava com essa imagem era o da “abertura” da praça. Obviamente tratava-se de uma abertura relativa. Em primeiro lugar ela não estaria à disposição dos defensores do neoliberalismo que se pretendia superar. Ainda assim, já que não se analisaria a folha corrida de quem quisesse vir à “praça”, para selecionar quem poderia ou não entrar - até porque o número de participantes dos Fóruns tinha logo atingido a casa das dezenas de milhares - eles até poderiam querer correr o risco, se o quisessem, de dar uns passeios em suas alamedas.2

Obviamente também, não caberiam na praça atividades desenvolvidas por empresas, ainda que não fossem propriamente “capitalistas” mas estatais. Toda empresa - mesmo as estatais, em ambiente neoliberal - tem em todas as suas células o DNA da busca do lucro e da luta pela sobrevivência, na concurrência de umas com as outras. Se o espaço do Forum fosse aberto a elas - mesmo que somente àquelas com “responsabilidade social”... - ele rapidamente se transformaria numa enorme feira de propaganda dos seus respectivos produtos - e ações sociais, quando as desenvolvessem, preocupadas com sua imagem - competindo umas com as outras com seus estandes ultra-equipados e recepcionistas lindas e gentís oferecendo cafezinhos e presentes, como naturalmente ocorre em toda convenção comercial que abre espaço para tais demonstrações de poder, riqueza e desenvolvimento dos negocios de cada uma3.

Mas neste capitulo da “abertura” das praças vale indicar que os proprios organizadores do FSM introduziram em sua Carta de Principios algumas exclusões, atingindo organizações que podem estar em nosso próprio campo de combate ao neoliberalismo: os partidos, os governos e as organizações que tenham optado pela violência como método de ação política.

Quanto a estas últimas, o impedimento se referia à realização,na “praça”, de proselitismo em torno da tese de que será necessário passar pelo emprego de armas para chegar onde queremos. Por isso atividades propostas por organizações que claramente adotaram essa tese não seriam inscritas pelos organizadores do espaço da “praça”4. Mas esta exclusão se deveu ao fato da não-violência ter sido a opção filosófica adotada pelos organizadores do primeiro FSM. Dela não compartilham no entanto, necessariamente, muitos participantes do movimento altermundialista que enfrentam diretamente a violência do sistema dominante. Ou seja, há um debate sobre esta exclusão que reaparece de vez em quando, cada um se posicionando a partir de sua experiência, seus valores e sua visão de mundo.

Quanto a partidos e governos, foram também os seus DNAs que levaram à sua exclusão. O DNA dos partidos, incrustrado tambem em todas as suas células, é o da competição e da luta pelo poder - objetivo pelo qual existem. O dos governos - ainda que pensando só naqueles associados à luta altermundialista - é quase o mesmo das empresas, na luta pela sobrevivência; e semelhante ao delas na busca do lucro, que para eles é o lucro eleitoral.

O resultado da presença competitiva e necessariamente proselitista dos partidos na “praça” seria o contágio dos participantes pelos comportamentos exigidos por esses DNAs, que matam as células cooperativas, anulando os efeitos pretendidos com a abertura das “praças”. Não fosse essa força contagiante até que se poderia cogitar de abrir as praças tambem para os partidos - que vivem aliás uma crise que os torna extremamente necessitados de “parar para pensar”, embora seja dificil imaginá-los dialogando horizontalmente. Eles na verdade não deixam de participar através de organizações que criam e controlam, mas não se sentem à vontade para se espalhar demais no espaço das praças. Melhor evitar o aumento dos riscos de contágio.

Os governos, por sua vez, ao contarem com muitos recursos humanos e financeiros, sua presença seria imediatamente invasiva e impositiva, transformando as praças em eventos “oficiais”, nos quais o povo seria reduzido à condição de espectador5.

Nossas “praças” não seriam portanto totalmente abertas nem seriam totalmente “neutras”. Os ventos que nelas soprariam teriam uma determinada orientação. Sua “neutralidade” se referiria somente às diferenças que existem entre os atores políticos engajados na luta pelo “outro mundo possivel”. E neste aspecto elas teriam efetivamente que ser amplamentre abertas, para que toda a diversidade do altermundialismo nelas coubesse.

Outras utilidades das “praças”

Independentemente da justeza ou não da metáfora das praças, ela pode nos servir para ver com clareza as outras utilidades que podem ter os encontros nelas realizados, para os movimentos e organizações que constituem o altermundialismo - alem daquela de serem um momento de “parar para pensar”, à distância e em conjunto, a ação que se está desenvolvendo.

A primeira delas se refere à tendência à divisão que recorrentemente debilita nossas organizações - uma das maldições que pairam sobre a esquerda - e à compartimentação de nossas ações.

A divisão decorre de diferenças na interpretação da realidade e nas propostas para modificá-la, e da decisão de, não tendo sido possivel fazer essa interpretação e essas propostas prevalecerem, separar-se para trilhar outros caminhos. Ela evidentemente interessa enormemente ao poder dominante. Por isso mesmo uma das estratégias que ele usa para manter sua dominação é provocar e alimentar nossa desunião. Mas ela se aprofunda porque também cedemos à uma dinâmica que é aliás o motor do capitalismo que combatemos: a competição, entre nós aplicada na luta por hegemonia na direção da ação política6.

As “praças” do FSM seriam então lugares onde poderiamos exercitar outros comportamentos, como um espaço para nossa própria reeducação - aprender a desaprender - que evitassem nossa fragmentação e construissem nossa união. Inclusive a Carta de Principios do FSM explicita que ele não é um lugar de luta pelo poder.

De fato, entrar numa “praça” do FSM como a descrita acima abriria a possibilidade dos membros de diferentes organizações e movimentos nela se encontrarem sem ter que competir uns com os outros para para conquistar espaço, conseguir adesões às suas idéias, marcar posições, ganhar mais visibilidade que seus concurrentes - como o fariam as empresas, partidos e governos se lhes fosse aberta a possibilidade de realizar atividades nos Foruns. Ao contrário disso, poderiam se dar ao luxo de somente procurar saber mais uns dos outros, ouvir quem lhes interessasse, deixar de participar, sem serem criticados, de atividades que não respondessem às suas prioridades ou preocupações, avaliar as ações e idéias dos outros sem que se sentissem obrigados a seguí-los ou a se associar a eles. A possibilidade de uma abertura assim tranqüila nesses encontros - reeducando-nos em nossa capacidade de ouvir e em nossa disposição de falar - abriria caminho para a superação de preconceitos e o desaparecimento de cicatrizes, num processo de reconhecimento mútuo que poderia levar a descobrir convergências às vezes insuspeitadas e, a partir dai, de construção de novas alianças nunca antes consideradas.

Da mesma forma se abririam portas rompendo os muros que compartimentam nossos diferentes movimentos e organizações. Muitos lutam pelos mesmos objetivos específicos, até paralelamente, mas desconhecem olimpicamente o que se passa ao lado deles, ignoram-se uns aos outros ou mesmo se prejudicam mutuamente, na defesa de seus respectivos pedaços de luta, seguidores, idéias, recursos. Há a memória de casos de movimentos e organizações que são levados a se enfrentar em lutas fratricidas, até violentamente. As barreiras separadoras são muitas vezes resultado de informações distorcidas sobre o que faz e pensa cada um, envenenados por incidentes ou atuações pessoais ou coletivas para cuja superação bastaria se prestar a esclarecimentos mutuos.

Poderiam ser rompidas tambem fronteiras entre nações ou mesmo entre etnias, criadas e alimentadas articialmente por interesses de potências de outros tempos - como sempre nos lembram os movimentos africanos do que ocorreu na história do seu continente - descobrindo-se a similaridade e a interdependência das lutas nos diferentes paises. E encontros de nivel mundial como os FSM permitiriam o lançamento de iniciativas regionais e continentais, e até planetárias, capazes de fazer frente à atual dominação do neoliberalismo, igualmente planetária7.

Esse tipo de utilidade que têm tido as “praças” de encontro do processo FSM é facilmente constatável na composição das novas redes, campanhas e mesmo movimentos que foram surgindo dentro desse processo ao longo destes dez anos, muitas delas extremamente diversificadas em suas ideologias políticas, superando até barreiras religiosas. Vários dos artigos de preparação do Seminário de Porto Alegre o mencionam claramente, como um beneficio trazido pelo FSM ao altermundialismo, que é preciso resgatar e respeitar, em tempos de avaliação do caminho feito. Em varios casos chega ser surpreendente a união construida entre organizações e movimentos que em outros tempos se enfrentavam e tentavam até se destruir uns aos outros.

Regra do consenso e união

Nesse processo permitido pela abertura da “praças” do FSM tiveram papel importante certas práticas adotadas pelos organizadores dos Foruns, como a regra do consenso, num aprendizado de diálogo - que, aliás, sequer tinha condições de ser tentado, porque não existiam “praças” desse tipo. Quando se tem que decidir por consenso e não por votos - que em geral leva ao distanciamento da minoria insatisfeita - não vale a pena se desgastar tentando identificar e denunciar os erros de interpretação dos outros. O que é necessário é tentar entendê-los e encontrar o que existe de verdade no que dizem e o que seria aceitável para todos. Decisões por esse tipo de consenso não exigem unanimidade de posições e uniformidade de pontos de vista, mas um consentimento de todos que lhes permita se manter juntos.

Esta união não se confunde portanto nem com homegeneidade, nem com a unidade buscada por muitos partidos e governos que mobilizam massas de fieis e disciplinados seguidores, por eles conduzidas, para o prazer do exercicio de poder de seus dirigentes. Ela menos ainda se confunde com a “ordem unida” tão ao gosto de militares, regimes totalitários e experiências fascistas de triste memória, com seus soldados marchando todos com o mesmo passo, em blocos monolíticos em que a individualidade - e com ela a pessoa - se dilue totalmente.

No movimento altermundialista é exatamente a riqueza de sua diversidade que pode lhe dar potencialidade transformadora. Ele será tanto mais eficaz quanto mais conseguir multiplicar os tipos, modos e niveis de ação dos membros da sociedade que nele se associarem para lutar pela transformação do mundo, respeitada a autonomia de cada um e estimulada sua capacidade de iniciativa e sua criatividade, na corresponsabilidade que é hoje possibilitada pela organização não piramidal em rede, outra inovação metodológica que cresceu muito nestes ultimos dez anos.

Nesta altura de nosso raciocínio teríamos completado o que chamei anteriormente de “vocação” do processo FSM, com suas “praças de encontro”: ajudar a contruir a união das organizações e movimentos que lutam pela construção de outro mundo, no seio do movimento altermundialista. Ou seja, alem de serem um tempo reservado para pensar em conjunto, elas podem ser um tempo reservado para se unir.

As cinco “novidades” do processo FSM

Ora, essa “vocação” do processo do FSM - assim explicitada em toda a sua dimensão - o fez de fato introduzir várias novidades no cenário politico do mundo. A primeira foi a própria criação dessas “praças” de encontro. Antes do seu lançamento elas não existiam. Cada movimento, cada tipo de organização ou ação fazia - e ainda faz, como tem que fazer - seus próprios encontros a todos os niveis, inclusive mundiais, “parando para pensar”. Mas não se contavam com espaços comuns a todos - ou ao maximo possivel de diferentes organizações e movimentos - em torno de um objetivo geral que todos compartilhassem. Menos ainda com espaços de nivel mundial.

A segunda novidade foi a organização desses espaços de tal forma que eles facilitassem o reconhecimento e o aprendizado mutuos, a troca de experiências, a identificação de convergências e da possibilidade de novas alianças, como caminhos para a construção da união entre os diferentes movimentos e organizações da sociedade. É este o sentido de se buscar sempre o aperfeiçoamento da metodologia usada na organização dos Fóruns. Esse aperfeicoamento não é senão a escolha de cada vez melhores modos e instrumentos para que eles realizem esses objetivos - o que de fato os fez serem sempre diferentes uns dos outros: em cada um se procurou aproveitar a experiência do anterior para que seu objetivo de “facilitador” de articulações, alianças, integrações e incubador de novas iniciativas fosse efetivamente alcançado.8

A terceira novidade foi o fato de se passar a considerar positiva, na luta política, a diversidade das ações e a autonomia dos diferentes atores. O respeito à diversidade, erigido como um dos principios básicos da Carta do FSM, se referia uma diversidade mais ampla do que a cultural, valorizada em programas de entretenimento como os de televisão. Ela incluia a diversidade na área e nivel de atuação politica e social, nas estratégias de ação e de organização, nas motivações para a ação, no ritmo de atuação de cada um e de cada organização, e mesmo no nivel de consciência dos problemas do mundo enfrentados pelo altermundialismo. É inteiramente contrário ao que seria o “outro mundo”, pelo qual lutamos, que nos encontros do FSM todos pensassem o mesmo, conhecessem somente o mesmo, neles entrassem iguais e saissem ainda mais iguais, desejo que muitas vezes penetra até em partidos políticos e movimentos que lutam pela mudança. Criando “praças” que não se fechem com participantes que rezem todos a mesma cartilha, o FSM pemite a expansão do movimento altermundialista.9

A quarta novidade foi a de apontar para a construção de uma nova cultura política, realizando seus encontros na fidelidade a esses principios mas de maneira descontraida, na alegria do reconhecimento e do respeito mutuos e de criação de novas amizades, sem ranger de dentes em lutas internas por hegemonia, sem preconceitos ou discriminações. Baseada na horizontalidade das relações, na organização da ação de uma forma não piramidal mas em rede, na corresponsabilidade, na ajuda mutua, na vontade de cooperar e de servir, na preocupação de não impor mas sempre dialogar, na busca do consenso que une e nos torna a todos mais felizes ao mesmo tempo que mais fortes e eficazes em nossa ação - essa prática seria uma espécie de antevisão do funcionamento desejável do “outro mundo possivel”.

A quinta novidade se encontra ainda em gestação mas avança pouco a pouco: a afirmação do próprio altermundialismo como um movimento multiforme, multifacético e diversificado, que amplia a ação política para mais alem dos partidos e da tomada do poder político10. Essa afirmação se baseia na consciência de que os partidos não podem pretender manter o monopólio da ação política, e que a ação que efetivamente transformará o mundo - embora possa se beneficiar com o controle de governos - será aquela que implicar todos os segmentos sociais e de cada um dos membros da sociedade, o que exige mudanças até em comportamentos pessoais, numa ampla perspectiva ética..

A necessária expansão, enraizamento e aprofundamento do processo

Essas cinco novidades por si só já justificariam amplamente, a meu ver, a continuidade do processo, na medida em que estamos ainda longe de expandí-lo a todo o mundo e de enraizá-lo e aprofundá-lo em toda parte. Se em outros tempos poderíamos sonhar em fazer surgirem um, dois, cem Vietnams, hoje, com a consciência do que somos, temos que fazer surgirem, mais prosaicamente e menos heroicamente, uma, duas, cem, milhões de “praças de encontro”... Essa é a vida.

Há portanto ainda muitas e enormes áreas do planeta, extremamente importantes tanto nas lutas de carater mundial como na superação de situações nacionais e locais de opressão e injustiça, em que a proposta das “praças” ainda nem chegou, ou se chegou só atingiu grupos restritos de militantes políticos ou membros de organizações abertas aos contatos internacionais. Nestes casos, nem sempre foi apreendida inteiramente sua função e sua “vocação”. E por isso mesmo os movimentos e organizações desses lugares continuam divididos e compartimentados, e portanto enfraquecidos, enquanto a publicidade e o controle das informações vai integrando cada vez mais suas sociedades ao sistema capitalista - até algumas com passado socialista... - soterrando seus corações e mentes com a avalanche do consumismo e do “ter” em vez do “ser”, processo necessário à expansão comercial planetária do sistema de produção capitalista.

Mas se a expansão do processo FSM está longe de ter toda essa força, isto não significa que ele já esteja bem enraizado onde já existe. Em muitos paises é ainda necessário criar muitas “praças” de encontro nacionais e locais, para que cada vez mais organizações e movimentos possam se unir em torno de novas iniciativas de conjunto. Isto se faz a um ritmo muito lento, por força da propria novidade do processo. E como demonstram muitos resultados eleitorais, os meios de comunicação de massa controlados pelo sistema distorcem a apresentação das propostas de mudança, criando resistências a elas. O proprio altermundialismo sendo muito pouco conhecido, compreendido e aceito pela população em geral, avança-se vagarosamente. De fato, aproveitamos ainda muito pouco das potencialidade do processo do FSM, com tudo que ele pode oferecer para pelo menos despertar mais consciências para a possibilidade de “outro mundo” mais justo e igualitário, e para que se descubra que ele é necessário e extremamente urgente.

Por outro lado, alguns movimentos e organizações consideram que a participação no processo do Fórum lhes foi útil para criar novas relações com outros movimentos e organizações, mas agora é algo que “já deu flor”. Melhor seria se ajudassem outros a tirarem dele o mesmo proveito. Mas essa atitude só seria possivel se as propostas do processo FSM tivessem sido efetivamente aprofundado por eles, o que nem sempre ocorreu11.

Marchas de abertura e encerramento

A metáfora das “praças”, que reapresento neste texto, pode tambem nos ajudar a ver as potencialidades, na perspectiva de expansão e enraizamento do processo, de uma das atividades que já se tornaram tradicionais nos encontros do FSM: suas marchas de abertura e encerramento.

Elas ganham um sentido todo especial dentro dessa metáfora: os participantes dos encontros caminham juntos até a “praça” em que se encontrarão, festejando com alegria essa possibilidade, e mostrando antecipadamente uns aos outros o que pretendem discutir, intercambiar, avaliar, propor; ao final dos encontros, todos caminham de novo juntos, já agora mostrando uns aos outros o resultado dos intercambios que fizeram, as propostas que foram adotadas, as ações que serão realizadas depois desses dias em que pararam para pensar juntos.

Nossas marchas não tem tido necessariamente todas essas caracteristicas, seja porque seu sentido não é claro para todos, que assim não se interessam em delas participar, seja porque nem todos os participantes chegam a tempo para a abertura do encontro e muitos viajam, de volta para onde vivem, antes do seu encerramento.

Outros problemas surgem quando a virus da competição, da necessidade de afirmação e da luta por visibilidade ainda envenena o comportamento de algumas organizações e as faz tentar aparecer mais que as outras, lutando por melhores espaços e posições nessas marchas, ou mesmo tentam se impor à frente das mesmas. 12

Esse mesmo tipo de dificuldade tem muitas vezes atraiçoado a decisão dos organizadores de não apresentar documentos ou declarações finais, respeitando a Carta de Principios do FSM. Esta não impede que declarações finais existam. Pelo contrário, se espera que elas possam mesmo se multiplicar, engajando na sua concretização aqueles que as subscreveram. O que a Carta quer evitar é que uma determinada declaração apareça como a mais importante ou pretenda traduzir o pensamento de todos os participantes dos Foruns - caminho curto para que a luta por essa condição se instale e o veneno da divisão separe e fragmente o que a praça uniu13.

Mas há uma potencialidade das marchas que ainda não foi suficientemente explorada: sensibilizar a população do lugar em que os encontros se realizam para os temas das discussões que neles ocorrerão ou para as denuncias que neles serão feitas.

Para isso não basta escolher um itinerário adequado. É também necessária a disposição e o desejo dos participantes de dialogar com a cidade. Se esse objetivo lhes fosse proposto antecipadamente, muita criatividade poderia ser despertada na forma de se apresentarem. Seria necessário superar a simples e tradicional repetição de slogans. E não reduzir as marchas a uma ocupação das ruas - às vezes incômoda para seus moradores - por gente em sua maioria de fora, da qual os meios de comunicação de massa a serviço do sistema sempre dirão, previamente, que é perigosa e desrespeitadora da sacrossanta propriedade privada. 14

Se um dos maiores desafios do processo FSM é ganhar um número crescente de adesões para o movimento altermundialista, as marchas podem ser um bom instrumento para isso. Um Forum Social Mundial, por exemplo, que atrai gente de todo o mundo, é para a população da cidade em que se realize uma grande oportunidade de educação política, isto é, de tomada de consciência da realidade do mundo e da sua própria realidade, bem como de conhecimento das alternativas que estão sendo propostas, pelo mundo afora, para melhorar suas próprias condições de vida e mesmo lhes dar sentido, mais além do que o sistema capitalista lhe oferece. Nesta pespectiva a “praça” deveria ter janelas pelas quais essa população pudesse acompanhar o que nela estivesse acontecendo, assim como deveriam ser programadas atividades externas dirigidas à cidade, mais além dos tradicionais shows musicais. Isto abriria a possibilidade dela ver desmentido o que terá sido dito sobre esses estrangeiros que ocupam suas ruas. E permitir que ela soubesse o que realmente os mobiliza, e descobrir toda a generosidade humana que está por detrás da luta altermundialista. Mas esta é outra discussão que não cabe abrir neste texto, que já se tornou longo demais.

Foruns temáticos

O formato adotado para o FSM de 2010 - realizar não um único Forum por assim dizer centralizado mas uma grande serie de Foruns pelo mundo afora - tem propiciado o surgimento de encontros temáticos. O mais caracterizado nesse sentido é aquele proposto pelas organizações indigenas dos Andes, sobre Crise de Civilização, que pretende aprofundar a raiz dos problemas que o mundo enfrenta e vem atraindo as mais diversas organizações do altermundialismo. Esse tipo de Forum, ao reunir pessoas voltadas para um único tema - diferentemente dos nacionais, regionais ou continentais, ou mesmo locais, nos quais o leque das temáticas discutidas é necessariamente aberto - pode levar a discussões mais precisas e ações transformadoras bem concretas.

É grande o número de fóruns temáticos possiveis: sobre migrações, agua, paz, questão urbana, clima, recursos minerais, energia, educação, saude, democracia, espiritualidade, partidos, participação, corrupção, bens comuns, etc., etc.

A questão é assegurar que todos sejam realizados como “praças abertas”, isto é, seguindo a Carta de Principios e as orientações que dela vem decorrendo: nenhum documento final único, nenhuma “direção” ou representação, abertura, respeito à diversidade, liberdade e horizontalidade na proposição de atividades, esforço de construção da união enquanto realização da “vocação” mais específica do processo FSM. Se assim ocorresse, eles se inseririam naturalmente no processo e repercutiriam necessariamente no conteudo das discussões das “praças” com temáticas menos restritas, enriquecendo-as e as aprofundando.

O futuro do FSM poderia assim ser desenhado como um emaranhado de “praças” de todos esses tipos e niveis, interligadas de diferentes modos e marcadas de tempos em tempos por um grande Forum Social Mundial. E todo esse processo alimentaria e estimularia a ação transformadora de todos os participantes do movimento altermundialista, rumo efetivamente ao “outro mundo possivel”. O que daria razão e sentido ao trabalho das pessoas e organizações que prestassem o serviço de assegurar a continuidade, a expansão e o enraizamento do processo.

A gestão do FSM como Bem Comum da Humanidade

Por último eu gostaria de abordar rapidamente um novo desafio que temos pela frente: parece estar se formando um consenso em torno da visão do FSM como um Bem Comum da Humanidade, uma vez que foi criado para servir a todos os movimentos e organizações sociais que, no movimento altermundialista, lutam pour um outro mundo.

Uma das 23 assembleias conclusivas que se realizaram na ultima manhã do Forum Social Mundial de Belem do Pará, em 2009, formulou um Manifesto pela Recuperação dos Bens Comuns. Seus objetivos: difundir amplamente o conceito de Bem Comum da Humanidade, e despertar as organizações e movimentos sociais para uma luta articulada pela sua Desprivatização e Desmercantilização.

O que se pretende é explorar toda a potencialidade transformadora, aglutinadora e conscientizadora do enfrentamento desse mecanismo básico do sistema capitalista: a apropriação privada desses bens e sua transformação em mercadoria, restringindo seu acesso àqueles que disponham de recursos para adquirí-los. O caso mais conhecido de aplicação desse mecanismo é o da privatização e mercantilização da água, mas ele ocorre em multiplas áreas e setores. Um dos que trazem maiores consequências - embora menos visiveis - para a vida das pessoas e do próprio planeta é a privatização e mercantilização do conhecimento.

Não me parece totalmente aplicável ao FSM a questão da mercantilização e da privatização. “Mercantilizá-lo” seria difícil, embora se possa introduzir dentro dele atividades mercantís, ainda que seja segundo os principios da economia solidária... Talvez fosse mais fácil “privatizá-lo” - colocando-o por exemplo ao serviço dos objetivos de correntes ideológicas e políticas particulares. Mas se isto de fato poderia ter ocorrido no inicio de sua história, agora se tornou praticamente impossivel, pelo menos a nivel mundial. Outro tipo de “privatização” pode ocorrer, a nivel local, bloqueando a expansão do processo, quando algumas organizações sociais - e até partidos... - decidem “prestar o serviço” de criar Foruns, que passam a ter uma vida propria como uma entidade ou organização permanente e evidentemente não correspondem a praças abertas sem dono, deixando de cumprir suas funções.15A saida para isso efetivamente parece ser a de considerar as “praças” do Forum como Bens Comuns.

Como no entanto, na prática, gerir uma “praça”, a qualquer nivel, como um Bem Comum, de forma a realmente protegê-lo e colocá-lo à disposição de cada vez mais gente? Esse seria um desafio em torno do qual toda experimentação teria que ser compartilhada. E, a nivel mundial, como gerir o emaranhado de Foruns que parece ser o futuro do FSM, de forma a que sirva efetivamente a todo o movimento altermundialista? Esse seria o desafio do seu Conselho Internacional.
 

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