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A Antipolítica é de direita

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Terminado o primeiro turno das eleições, a evidência é óbvia: o discursoda antipolítica venceu.

O que é a antipolítica? É aquele discurso “não sou político, sou administrador, encabeçado por sujeitos como João Dória Júnior, eleito prefeito em primeiro turno em São Paulo, e Alexandre Kalil, que vai disputar o segundo turno em Minas Gerais.

João Dória Júnior votando em São Paulo, ao lado de Alckmin

Vocês lembram da tradicional frase se você votar em branco, o voto vai para o primeiro colocado? Ela tem um fundo de verdade. Mas não são só votos em branco: nulos e abstenções entram no mesmo balaio. E isso acontece por um motivo simples: votos brancos, nulos e abstenções não são contados como votos válidos. Então, a cada voto em branco, anulado ou não dado, o candidato que está na frente vai precisar de meio voto a menos para conseguir 50% dos votos mais um. Foi um dos motivos que fizeram com que João Dória Júnior fosse eleito já no primeiro turno em São Paulo.

 

*O Que é a Antipolítica?*

Em junho de 2013, milhares de pessoas foram às ruas protestar por mais saúde e educação, elegendo o governo Dilma como o grande culpado por seus problemas. Tudo aconteceu de um jeito meio inexplicável: até o dia 13 de junho, os manifestantes eram baderneiros querendo a reversão do aumento no preço do ônibus. Daí a PM de São Paulo, administrada pelo governador Geraldo Alckmin, foi truculenta e cometeu diversos abusos de autoridade, batendo em manifestantes e jornalistas como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Daí, todo mundo se sentiu no dever de ir protestar junto. Mas de um jeito meio estranho, sem pauta, pé ou cabeça. Então, as pessoas começaram a protestar por pautas genéricas: mais saúde, mais educação, hospitais padrão FIFA, escolas padrão FIFA. Tudo fruto de uma insatisfação latente que acabou sendo direcionada toda contra o governo federal, e, mais especificamente, contra o PT. Nesses protestos à partir do dia 17 de junho, grupos ligados a partidos políticos eram rechaçados. Um dos gritos era:

Fora, políticos! Fora, partidos!

Bem, isso foi crescendo. Com a Lava Jato, com os protestos anti Dilma, com o processo de impeachment de Dilma. E isso fez a sensação de que política é ruim crescer. E, na eleição de 2016, surgiram os primeiros grandes efeitos disso: o triunfo de candidatos que se diziam não políticos, surfando na onda dessa rejeição à política partidária.

*A Trivialidade*

Um problema recorrente na tentativa de se fazer análise de votação é o de achar que as pessoas pensam refinadamente no voto, analisando todas as possibilidades, como se o país tivesse 205 milhões de cientistas políticos. Não tem, embora às vezes as redes sociais pareçam sugerir o contrário.

A questão aqui é uma só: o voto (ou não-voto), na maioria das vezes, tem motivações bem mais triviais do que parecem ter. Especialmente em tempos em que a a política é vista negativamente por parte expressiva da população. Para ficar em um exemplo: entre domingo e ontem eu conversei sobre a eleição com algumas pessoas da 350ª Zona Eleitoral, em Sapopemba, na Zona Leste de São Paulo, tradicional reduto petista. Lá, João Dória Júnior teve incríveis 55,27% dos votos, votação que nenhum político do PSDB nunca tinha tido para prefeito.

Sabem qual era o principal argumento das pessoas que votaram no Dória naquela região? Em resumo: muita gente que ia votar no Russomanno ou na Marta viu as pesquisas eleitorais e resolveu votar no Dória pra acabar logo. E isso não tem a ver com ódio ao PT ou coisa do tipo: as pessoas queriam que a eleição acabasse logo pra não ficar mais um mês discutindo política. E muita gente nem foi votar.

Nessas horas fica mais fácil entender um movimento até tradicional na nossa política: o de incremento de votos para o candidato que está ganhando. No primeiro turno, esse movimento, que em geral nem é tão intenso, tem a ver mais com a impaciência das pessoas em relação à política. E, no caso paulistano, foi especialmente intenso nessa eleição. Se considerarmos a diferença entre o Datafolha de sexta e sábado e a eleição de domingo, há um movimento no voto de dez pontos percentuais da população em pouco mais de 24 horas.

Essa movimentação intensa é típica de momentos em que a política está em descrédito no país. O voto não é consolidado com antecedência porque, na percepção do eleitor, vale muito pouco. E dois dados mostram esse descrédito.

O primeiro deles é a queda do Brasil no ranking de países mais democráticos do mundo, da Economist, da 44ª para a 51ª posição http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160120_ranking_democracia_brasil_fd. Como o ranking foi divulgado em janeiro, a estimativa é que a posição brasileira piore ainda mais no próximo ranking, sendo considerados os critérios para a confecção do mesmo. O país deve piorar ainda mais a sua nota em cultura política, por exemplo.

O segundo dado é ainda mais preocupante: na esteira do processo de impeachment de Dilma Rousseff, o apoio dos brasileiros à democracia caiu de 54% para 32%http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,apoio-a-democracia-no-brasil-cai-22-pontos-diz-pesquisa,10000073814. Esse dado é significativo demais: se só 32% apoiam a democracia, só 32% veem sentido em valorizarem seus votos. Para o resto, qualquer coisa é boa. E daí o voto vira uma trivialidade.

*Esquerda e Direita*

Outro efeito da antipolítica é a interdição da discussão política. Ideologia passa a ser algo negativo, e uma demonstração empírica disso está no surgimento de movimentos como o Escola sem Partido, que é um movimento extremamente ideológico que se esconde sob a aura de desideologização. Quando o conceito de ideologia é tratado de forma pejorativa, a definição de adversários como ideológicos soa como uma tentativa de descredibilizar o discurso desses adversários.

Junto com a negação das ideologias, vem a negação da política. Esse é um discurso corrente de Geraldo Alckmin, que usa a frase ah, isso é política como forma de tirar a credibilidade dos discursos e ações de todo e qualquer adversário político. Foi assim nas ocupações das escolashttp://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1819407-crivella-vai-buscar-apoio-de-aecio-kassab-e-bolsonaro.shtml?cmpid=compfb do que com qualquer político que se diga de esquerda.

Além disso, há a questão dos governos de esquerda fazerem bem o seu papel em escala local. Haddad não perdeu em São Paulo só por causa do discurso da antipolítica: perdeu também porque em diversos locais mais afastados do Centro (Sapopemba, inclusive), a sensação da população é deque as coisas não melhoraram. Ambulatórios e postos de saúde não atendem adequadamente a população, os CEUs são ótimos mas as demais escolas municipais são ruins, o prefeito prometeu vaga em creche para todo mundo e não cumpriu, a iluminação pública continua deficitária (e não, quem mora na região não sabe que está em andamento a PPP para trocar a iluminação da cidade de São Paulo toda por lâmpadas de LED, só quer chegar em casa com mais segurança, em ruas mais claras, e isso não aconteceu).

Em situações assim, o discurso da negação da política prospera. Porque o estado ou não faz o seu papel, ou o faz mal feito, dando argumentos para quem chega com um discurso vamos colocar isso na mão da iniciativa privada. E, no Brasil, esse discurso tem um outro fator de destaque: o empresário brasileiro não é bom e não inova, mas ainda é visto como referência de pessoa de sucesso. E aí o exemplo mais claro está na própria Igreja Universal. Quem tem sucesso na empresa é o empresário, o empreendedor, o sujeito que gera empregos, ainda que explorando os outros. É um ideal muito difundido entre a população, especialmente nas periferias, o de deixar de ser funcionário e passar a ser patrão.

Agora, sabendo disso, respondam? Quais são os projetos da esquerda relacionados à educação financeira, microcrédito para empreendedorismo e inovação? Nos últimos anos, nada. Até alguns anos atrás, existiam programas estilo Banco do Povo que instrumentalizavam microcrédito a taxas subsidiadas. Agora, eles perderam prioridade.

Ao se esquecer de seu fundamento e de seu propósito, a esquerda passou anão enxergar mais todas essas nuances da sociedade. E se tornou escrava das circunstâncias. Quando elas se tornaram desfavoráveis, a esquerda perdeu o seu espaço para a antipolítica. E só vai recuperar esse espaço quando recuperar seus fundamentos e o seu propósito. Porque, no fundo, a anti política é só o discurso de manifestação dos interesses individuais, em detrimento dos interesses da sociedade como um todo. E a vitória dos interesses individuais não é só a derrota da política: é a desagregação do próprio tecido social.

* Sociólogo/Unicamp e mestre em Planejamento Territorial

São Paulo, 5 outubro 2016

 

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