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Igualdade ou desigualdade, eis a questão!

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Quando alguém acompanha de longe – como eu agora, a milhares de quilômetros do Brasil – as discussões que se travam entre os militantes de esquerda em nosso país, não deixa de ser impressionante a dificuldade que se está enfrentando para começar a re-virar o jogo, depois da espetacular paulada que o PMDB – este enorme e maquiavélico partido, que usufruiu dos bônus de todos os últimos governos sem arcar com seus ônus – conseguiu acertar bem no meio de nosso crâneo. A multiplicidade e a intensidade das análises, autocriticas e propostas que surgem de todos os rincões a que tenho acesso, graças ao fenomenal serviço que as famosas redes sociais prestam a uma intercomunicação horizontal - sem nem se importar com as distâncias – me levam a concluir que agora sim, muito mais do que em tempos de pré-impeachment, entramos em “estado de perplexidade” pós choque. Eu diria até que o que vemos no Brasil hoje é quase uma dança de baratas tontas. Com algumas vozes tentando colocar ordem no pedaço.

Fomos de fato surpreendidos, refestelados que estávamos no tal de poder, com a velocidade máxima que a oposição ao PT e seus aliados imprimiu ao golpe parlamentar-mediático-jurídico que estavam urdindo há muitos anos. E tinham que fazer isso pois constataram que logo seriam também plenamente atingidos pela atuação dos organismos encarregados por um governo, que muitos deles apoiavam, de tentar cercear a doença endêmica do Brasil (e do capitalismo) que é a corrupção. Se o próprio partido desse governo não estava sendo poupado - pelo contrário, mais visado que os outros - eles ficaram realmente preocupados ao perceber que logo chegaria a sua vez. Mas como se isso não bastasse, a oposição que construíram no país nos acertou logo em seguida outra paulada, a das eleições municipais. Em que constatamos que perdemos todos os votos dos que desta vez se abstiveram ou votaram branco e nulo, em número superior aos votos dados aos que venceram as eleições.

Mas diferentes como somos nas nossas estratégias para tentar construir um país justo, a diversidade do que está sendo proposto como saídas só consegue, por enquanto, aumentar a perplexidade. Da refundação do PT e do próprio Partido Comunista – tantos anos depois do fim da Guerra Fria e suas sequelas no imaginário social - à criação de um novo partido, desta vez novo para valer, levanta-se a necessidade de muitas frentes de esquerda. Inclusive seguindo o modelo da Frente Ampla, que no Uruguai conseguiu reunificar os sobreviventes de múltiplas experiências, entre as quais os da luta armada dos famosos Tupamaros - um dos quais acaba de cumprir um mandato presidencial e se tornar a figura emblemática do que gostaríamos que fosse todo governante.

 

Mas não temos remédio senão dar tempo ao tempo, para que a poeira vá baixando e consigamos ver um horizonte mais claro. Com a perspectiva otimista de que todas as propostas têm um ponto em comum: precisamos nos unir. É o mínimo aliás que se poderia esperar realisticamente, diante da desproporção do poder entre direita e esquerda no Brasil. E um segundo critério emerge em muitas das propostas: diferentemente da ação da direita, nossa luta é de baixo para cima, a partir da consciência do povo sofrido, único realmente interessado em mudanças, neste país que se orgulha de ver sua classe média consumista aumentar, e que ganhou agora dirigentes políticos como o marido de uma artista plástica que não se incomoda em se mostrar inacreditavelmente alienada, politicamente.

Nosso problema está passando então a ser: unir-nos em torno do que? Um partido, uma liderança (nova ou velha), um programa de governo, um objetivo eleitoral, a mobilização popular, um projeto de nação?

Eu ousaria dizer, colocando mais uma boiazinha neste mar de angústias, que o que deveria diferenciar os blocos (não carnavalescos) de esquerda e direita no Brasil de hoje é a bandeira da igualdade. Igualdade ou desigualdade, eis a questão! Como cada um de nós se situa frente à proposta de uma sociedade igualitária? E isto em múltiplos e variados sentidos: do gênero ao étnico, da cor à origem, da idade ao nível de escolaridade, das regiões nacionais às áreas das cidades em que se vive, das oportunidades de vida melhor e condições de vida cotidiana, de acesso aos serviços essenciais para enfrentar a doença, etc. etc., de esperança.

Tenho a impressão de que poucos teriam a coragem de se declarar partidários da desigualdade. Acredito que não ousaria fazê-lo nem o Ministro que está nos presenteando com uma mudança constitucional que não mexe no que o governo paga aos rentistas mas congela os gastos sociais. Um mínimo de coerência o obrigaria a explicar melhor a mágica que pretende fazer, ele que já foi ministro de um governo que estaria do nosso lado... Aliás nas famigeradas redes sociais alguém se surpreendeu com um tucano votando contra a 241, acostumados que estamos ao Fla-FLu histórico PT X PSDB...

Tenho o sentimento de que essa pista pode ser boa, para conseguirmos reunir mais gente em torno das propostas de esquerda. Aliás como tenho a ideia fixa do Fórum Social Mundial, eu me pergunto se não seria oportuno organizar um Fórum Social Temático (esta nova moda que emerge no processo do FSM) sobre uma sociedade igualitária no Brasil. Horizontal, livre, sem preconceitos, respeitando a diversidade, sem lideranças, gurus ou partidos (mas aberto aos seus militantes, obviamente).

Aliás outra de minhas ideias fixas é o nuclear, como sabem meus amigos e amigas. Pois estou testemunhando de perto, na França, a potencialidade unificadora de tais Fóruns, com a provável organização de um Fórum Social Temático europeu contra o nuclear civil e militar, em 2017. Ora, este é um caso mais do que tragicamente exemplar da capacidade dos defensores de uma tecnologia “contestada socialmente”, como disse a autora de um estudo a respeito, dividir a um nível inimaginável de enfrentamento reciproco, quase mortal, os que a ela se opõem. É bem verdade que estamos aqui frente a um poder descomunal, incrustrado no orgulho nacional, que se estruturou ao longo de mais de 50 anos, apoiado em estratégias de defesa nacional, em estruturas de alta e vastíssima pesquisa, em posicionamentos de personalidades históricas, em grandes interesses comerciais do famoso complexo militar-industrial.

A fragmentação de nossa esquerda não chega a ser tão complicada e problemática, convenhamos. Talvez seja mais fácil nos unirmos.

Chico Whitaker, 12 de outubro de 2016

 

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