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Dom Paulo Evaristo Arns

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Dom Paulo Evaristo Arns

Fábio Konder Comparato

D. Paulo Evaristo Arns, exemplo de coragem e firmeza na defesa da dignidade humana, assim que assumiu as funções de bispo auxiliar da arquidiocese de São Paulo, deu-se conta do caráter terrorista do regime empresarial-militar instaurado com o golpe de 1964. Ao tomar posse do cargo de arcebispo metropolitano de São Paulo, em 1º de novembro de 1970, ele fez da Cúria Metropolitana o centro de resistência à política de seqüestros, assassínios e tortura de presos políticos. A Cúria passou a ser visitada quotidianamente por dezenas de perseguidos, bem como por familiares de presos e desaparecidos, independentemente da orientação política ou da fé religiosa de cada um deles. O pai de Ana Rosa Kucinski, por exemplo, de tradição judaica, vinha quase todos os dias buscar uma palavra de consolo junto a D. Paulo, lamentando-se desesperadamente do desaparecimento de sua filha, que foi assassinada na Casa da Morte de Petrópolis e cujo cadáver, ao que consta, foi queimado.

D. Paulo foi o primeiro a organizar, na Cúria Metropolitana de São Paulo, a lista dos desaparecidos políticos.

Para entender todo o sentido de sua posição em defesa da dignidade humana, é preciso lembrar que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil deu apoio oficial ao golpe militar de 1964, em declaração de 29 de maio, na qual os bispos brasileiros afirmaram que, vendo “a marcha acelerada do comunismo para a conquista do poder, as forças armadas acudiram em tempo, e evitaram que se consumasse a implantação do regime bolchevista em nossa terra”.

Em 1972, ele criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo, da qual tive a honra de ser um dos membros fundadores. Durante aqueles anos de regime de terror, nossa missão principal consistia em anotar pormenorizadamente todos os fatos relativos à prisão de opositores políticos ao regime. Periodicamente, tais fatos eram levados por D. Paulo ao conhecimento do General Comandante do II Exército, de modo a desfazer a costumeira explicação oficial de que tais pessoas haviam desaparecido sem deixar vestígios, ou que haviam morrido em tiroteio com as forças policiais.

 

Documentos guardados pelo Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, mostram que D. Paulo tomou a iniciativa de liderar um movimento internacional de denúncia dos crimes contra a humanidade praticados pelos dirigentes militares em nosso país.

Não foi, portanto, surpreendente que em pouco tempo D. Paulo tenha se tornado o maior adversário do regime militar aqui instalado. Conscientes disso, os chefes militares buscaram fechar um cerco em torno dele, cerceando seus pronunciamentos através dos meios de comunicação social. Fecharam a Rádio 9 de Julho e instalaram a censura na redação do jornal O São Paulo, ambos pertencentes à arquidiocese.

D. Paulo, que à época já fora nomeado cardeal, pediu-me então que procurasse, na qualidade de seu advogado, o delegado da Polícia Federal encarregado de supervisionar essa censura ao jornal. Na entrevista com o delegado, manifestei minha estranheza com o fato de que os veículos da imprensa, do rádio e da televisão, aqui sediados, falassem abertamente de D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, e silenciassem o nome do cardeal arcebispo de São Paulo. Ao que ele me retrucou: – “Em cumpro instruções, meu caro senhor. D. Helder Câmara pode ser mencionado, toda vez que falem mal dele. Não é o que ocorre no jornal O São Paulo com a pessoa do cardeal”.

Não tendo obtido grande êxito em silenciar D. Paulo com o fechamento da Rádio 9 de Julho e a censura ao jornal da arquidiocese, decidiram então os chefes militares buscar apoio na cúpula eclesiástica, a fim de isolar o “rebelde”. Procuraram, com esse intuito, o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, D. Eugenio Salles, que timbrava em manter um “comportamento prudente”, como se dizia na caserna, e era o responsável, junto ao Vaticano, pelo funcionamento das Comissões Justiça e Paz no âmbito nacional. Instado pelos militares, D. Eugenio, alegando instruções recebidas de Roma, decidiu transformá-las todas em simples “comissões de estudos” (commissiones studiorum), e mandou que um emissário comunicasse essa decisão a D. Paulo.

Ao recebê-lo durante uma reunião da nossa Comissão, D. Paulo declarou que, ou ela manteria a mesma linha de atuação, ou deixaria simplesmente de existir.

Após as despedidas do emissário de D. Eugenio Salles, D. Paulo nos pediu para que preparássemos, desde logo, a transformação da Comissão Justiça e Paz em uma associação civil, dotada de personalidade jurídica e, portanto, independente da autoridade eclesiástica. O que foi feito. Com isso, pudemos prosseguir em nossas atividades, seguindo unicamente as instruções de D. Paulo.

Permito-me, agora, falar de minhas relações pessoais com D. Paulo, pois ele transformou minha vida, operando aquilo que no linguajar cristão tradicional costuma ser denominado uma conversão.

Em 1972, eu atuava como professor de direito e advogado. A família de meus pais habitava uma casa em frente ao Palácio Pio XII, que era, à época, a residência episcopal. Surpreendentemente, lá fui chamado por D. Paulo, sendo convidado para integrar a Comissão Justiça de Paz da arquidiocese. Muito embaraçado, respondi que não me considerava um bom católico, no sentido de cumprir religiosamente os deveres eclesiásticos, para aceitar tal convite. D. Paulo olhou-me firme nos olhos para dizer serenamente: “Isso não tem a menor importância; quero apenas saber se o Sr. está disposto a atuar em defesa das vítimas do regime militar em vigor”.

Graças a essa lição, passei a compreender que a essência da verdadeira vida cristã não está no cumprimento dos rituais religiosos, mas em servir o próximo, sem nada procurar ou esperar para si próprio. Ou, como ensina a sabedoria budista, nas palavras do Dalai Lama, “quanto mais nos importamos com a felicidade de nossos semelhantes, mais felizes nos sentimos”.

Não creio que tenha cumprido fielmente essa lição, mas de qualquer modo mudei o rumo de minha vida.

 

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