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O problema de nós brancos, por Xixo/ Maurício Piragino

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Não me surpreendeu em nada o racismo de William Waack.

Por por Xixo/ Maurício Piragino, do GGN

Também não me interessa agora saber se no bastidor desse episódio há disputa de poder e ‘puxada’ de tapete. Não o conheço pessoalmente. Mas, o que dizem alguns jornalistas é que ele é uma pessoa de trato difícil no trabalho, apesar de ter uma boa formação. E isso combina com o jornalismo que faz(ia) de péssima qualidade – na minha modesta opinião de espectador de seu telejornal – sempre com um viés de ódio, amargando as notícias através de grifos ou distorções, conforme seu interesse ideológico e partidário, cooptando o telespectador com uma aura infame de neutralidade mas, estrangulando com força o bom jornalismo. O Wikileaks revelou, em 2011, que ele foi um interlocutor da ‘realidade política brasileira’ para os norte americanos através de sua embaixada aqui no Brasil. Atividade normal para muitos. Não há o que condenar nenhum jornalista por isso. Jornalistas conversam. Procuram fontes e também são fontes. Porém, é difícil de acreditar essa inocência de um âncora de televisão da emissora de maior audiência do país, com grande poder de formar opiniões, que essa aproximação seja tão desvinculada de outros interesses.

O comportamento dele sempre me passou uma má impressão, de uma pessoa arrogante e insatisfeita. Talvez até infeliz. Não que eu acredite que a felicidade possa ser plena. Quem me dera! Deixei de acreditar em Papai Noel há algumas décadas. Mas, a infelicidade sim pode ser plena. E as pessoas infelizes estão muito perto do sentimento de ódio. E o ódio puro, como temos visto a torto e direito, beira à doença mental, no sentido de que toda doença mental, entre outras coisas, estabelece um padrão engessado de pensamento, convicção irracional e repetição, da mesma forma que os preconceitos. Portanto, os preconceitos são primos-irmãos dos distúrbios mentais. E o ódio também o é na medida em que se alimenta de preconceitos.

Vivemos em tempos do ‘ódio sem foco’, como diria o grande ativista Noam Chomsky. Isso, segundo ele, faz com que deixemos de ser solidários, incentivando o individualismo que estimula o menosprezo e enxugamento do Estado, suas políticas públicas de reparação, busca de equidade e bem estar social. Com o triunfo do grande capital, cai por água abaixo o grande modelo de pacto civilizatório construído a duras penas pela humanidade. Nesse contexto, interlocutores com grande alcance, como William Waack, que destilem ódio, são grandes servidores da causa do capital.

 

É gravíssimo o que William Waack falou. E não ‘foi’ gravíssimo, pois esse é um problema que nunca ficou no passado do Brasil. Jamais vou esquecer a fala do amigo Professor Silvio de Almeida dizendo que ‘todo negro sabe exatamente o dia em que descobriu que era negro!’. Esse dia é quando o preconceito chicoteia, como num pelourinho, marcando as costas da alma dos cidadãos pretos em nossa sociedade.

Os racistas partem da ideia de que a cor da pele determina a forma de agir e pensar. A cor da pele substituiria o cérebro!

E quanta gente ‘distinta’ e ‘estudada’ se gaba por aí reproduzindo preconceitos velados e muitas vezes até inconscientes: “não sou racista, tenho amigos negros!”. Posso até imaginar Waack dizendo: “ – Tenho amigos negros!”

Mas, o caso dele é bastante curioso: trabalha diariamente com negros e é até formalmente simpático com eles, como o é com Heraldo Pereira, Maju Coutinho, Zileide Silva e Abel Neto e, no fundo, ser um “adivinhador preconceituoso” das atitudes futuras deles por conta da cor da pele preta dos colegas.

Bastante significativo o momento em que ele destilou seu racismo: na vitória da supremacia branca, conservadora e machista! Na vitória de um presidente capaz de dizer, sem hesitar ou ruborizar, que poderá aniquilar um país inteiro se quiser. E de fato, pode.

Mas, também chamaria a atenção ao xingamento inicial gratuito dele. Revela alguém de mal com a vida, pois com as buzinadas foi de tolerante a intolerante com o torque de um carro de fórmula 1(vide o vídeo).

Acredito que uma leitura psicanalítica responde parcialmente. Dinâmicas que Freud descreveu devem caber muito bem nesse caso. Mas, Waack precisaria deitar num divã. E isso é coisa da vida privada que não devemos adentrar para não ser invasivo e repetirmos preconceitos, afinal sou contra qualquer tipo de linchamento, inclusive dos que cometem grandes erros, como ele. Porém, o problema maior não é a psiquê do William Waack mas, são os ‘Willians Waacks’ que estão dentro de nós brancos, em nossa família, no círculo de amigos, no ambiente de trabalho e nas nossas escolas e universidades. E o pior e mais grave: na convicção de parcela poderosa de muitos brancos!

A pesquisa da Oxfam de 2017 sobre a desigualdade brasileira revelou que um negro com excelente formação, absolutamente igualzinha a de um branco, que ele nunca terá o mesmo rendimento dos brancos.

Imaginem, por exemplo, se pudéssemos colocar em caixinhas os comportamentos das pessoas pela cor da pele: branco. Mas, existe um só tipo de branco? Deveríamos apurar e derivar mais conforme o tom da pele: branco transparente, branco leite, branco bege, branco rosa ou ainda branco jambo(para ficar só com esses cinco matizes). E afirmaríamos sem pestanejar: brancos transparentes são chatos e burros. Os brancos beges – como ele e eu – são mais sujos de ódio. Os brancos leite são mais azedos. Brancos rosa são muito frágeis. Brancos jambos são mais promíscuos.

Certamente eu, como branco bege, mudando para uma cidade praiana, repleta de sol, significará categoricamente que mudarei de personalidade a partir do escurecimento do meu corpo. Pela cor da minha pele, todos saberão do meu caráter e, portanto, todos poderão prever o que faço? Oi!?

Tudo pode virar uma estupidez de proporções enormes e alimentar os preconceitos que tiram as pessoas de casa em pleno século XXI para se manifestar em frente a um teatro querendo queimar uma pensadora como uma ‘bruxa’.

O mais grave nos racistas e preconceituosos é a enorme ignorância irracional prepotente!

O problema do racismo é muito maior na sociedade brasileira por uma causa histórica. Não é só algum mecanismo individual psíquico. Ele é estrutural! O que o justifica foram quase 400 anos de escravidão e uma libertação que, de pronto, não deu oportunidades, nem libertou de fato, e provocou uma exclusão gigantesca da população preta, ex-escrava e pobre por todas essas décadas desde o século XIX até hoje, indicando inclusive o local no qual podem estar ou circular em nossas cidades. As velhas e presentes oligarquias brasileiras, nossas elites brancas do atraso, sustentam com vigor esse ‘status quo’, como dizem o Professor Fábio Konder Comparato e o sociólogo Jessé Souza.

Além do genocídio da juventude preta, pobre e periférica, pensem na história do garoto negro que foi prestar agora a prova do Enem em Salvador na Bahia, e perdeu a prova por conta da polícia tê-lo retido para averiguação pois, ele estaria andando em um lugar ‘errado’, conforme disse o policial, que era onde faria a prova, avenida em bairro de classe média alta. Na cabeça da maioria de nós brancos, achamos ‘normal’ a polícia fazer esse tipo de intervenção. Lembro-me também, de meu velho amigo negro que milita na Escola de Governo, indo para nossa reunião e chegou bem atrasado pois foi parado duas vezes pela polícia para averiguação pois estava andando aqui em São Paulo a pé em bairro nobre: Paraíso. Simbólico não?! Pretos têm que ficar longe do Paraíso.

Todas essas situações revelam mais uma vez qual é a questão e qual é o foco principal: no Brasil o racismo é um problema de nós brancos!

E só iremos resolver isso, quando de fato, todos nos mobilizarmos e entendermos que depois da descoberta do DNA, caiu por terra qualquer das frágeis e insustentáveis intenções de distinguirmos algo pela cor da pele. Sobre as ‘raças’, a conclusão científica é que só existe uma raça: a humana.

Nossa enorme ignorância branca!

Palavra de branco bege!

Xixo/ Maurício Piragino – Coordenador geral da Escola de Governo(www.escoladegoverno.org.br), psicoterapeuta e médico chinês.

Obs:

1)Dica de leitura:“ A elite do atraso” de Jessé Souza – Editora Leya e “A oligarquia brasileira: visão histórica” de Fábio Konder Comparato – Editora Contracorrente, ambos recentemente lançados.

2)Agradeço a Camila Prado pela leitura revisora crítica.

 

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