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Muita emoção na primeira Oficina Pedagógica do Curso de Formação em Direitos Humanos

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Na terça-feira (21/12), o módulo de oficinas pedagógicas do curso promovido pela Escola de Governo, SMDHC e EMASP para servidores da Prefeitura de São Paulo teve muita emoção e compartilhamento de conhecimento na palestra da professora Ausônia Donato. Diretora pedagógica do Colégio Equipe, ela usou histórias marcantes de sua vida como educadora para falar sobre Prática Pedagógica e Aprendizagem.

O terceiro encontro do Curso de Formação em Direitos Humanos para os servidores de Prefeitura de São Paulo, ministrado pela Escola de Governo em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) e a Escola Municipal de Administração Pública de São Paulo (EMASP), órgão da Secretaria Municipal de Gestão (SMG), começou com muita emoção e aprendizado, na manhã da terça-feira (21/11).

Nesta terça-feira teve início o módulo das Oficinas Pedagógicas do curso, e a responsável por abrir esse módulo foi a professora Ausonia Donato. Diretora pedagógica do Colégio Equipe, doutora em Saúde Pública, com mestrado em Educação em Saúde Pública e Psicologia da Educação, Ausônia atual desde 1969 atua na educação formal, com foco na Saúde Pública, e se tornou uma das maiores especialistas brasileiras em educação e pedagogia, sempre defendendo uma pedagogia que ensine não pelo medo e pela dominação, mas pelo amor e pelo compartilhamento de conhecimento.

Antes de começar sua exposição, Ausônia pediu para os se apresentarem e contarem uma história marcante de sua vida escolar. Novamente, chamou atenção a diversidade de histórias de vida dos alunos, e todos tinham uma história interessante e algumas até emocionantes, sobre professores e momentos que marcaram sua vida na escola e eles lembram com vivacidade até hoje. Em diversos momentos, professora e alunos se emocionaram. E Ausônia, que sempre lembra como emoção e afetividade devem fazer parte da pedagogia, se emocionou e chegou a ficar com a voz embargada e lágrimas nos olhos.

Ao começar sua palestra, ela explicou porque começou pedindo para cada um contar uma história da escola. “Nosso tema é Prática Pedagógica e Aprendizagem, então pegamos elementos pra ir resgatando. Vamos discutir aquilo que é fundamental no processo de educação e socialização, a aprendizagem. A aprendizagem é o centro de toda discussão sobre educação, se não houve aprendizado não houve o ato de educação”. Logo ela afirmou que existem duas formas de educação. “Você pode educar pela restrição, pela dominação, em que nos sentimos impedidos de fazer coisas, e tem a educação que promove, faz ir pra frente, valoriza, aumenta a autoestima. Dependendo deste jeito de entender educação também entendemos a aprendizagem. Alguns acham que a aprendizagem se dá pelo medo. A gente se torna até adultos diferentes dependendo desse tipo de aprendizagem”.

 

Ausônia é especialista em educação em saúde pública, e afirmou que nesta área essa diferença de abordagens é muito nítida. Mostrando um folheto retirado da pasta de materiais que trouxe pra ilustrar a oficina, disse: “Na saúde também existe uma educação pela vida, e outra restritiva. Durante muitos anos, até 1960, a gente aprendia educação em saúde como folhetos como esse, que falavam: ‘a culpa da pobreza é dos próprios pobres, que são doentes porque não se preocupam em ter uma alimentação sadia e têm vermes porque são preguiçosos e não constroem latrinas, andam descalços e não vão ao médico’. Os jovens foram educados sobre doenças venéreas até os anos 80 desta forma. Era um envelope escrito ‘Confidencia’”, e dentro tinha uma verdadeira peça de terror”.

“Tenho certeza que teremos aqui um grande grupo de socializadores”

Ela seguiu explicando que esse aprendizado pelo medo é apenas uma das matrizes de educação possíveis, que mudam muito de acordo com o ambiente escolar e o contexto social. “No geral, quando a gente fala em educação falamos de algum lugar. Quem estuda em escola pública ou estudou no Equipe, vai falar de jeitos diferentes de educação. Terão outras concepções, que vêm da vivência. Para alguns, a escola é muito legal, para outros, é um martírio”. Também lembrou que eles, após receberem a formação em Direitos Humanos no curso, irão atuar como socializadores, e filosofou sobre esse papel de quem socializa o conhecimento. “A gente socializa o tempo todo, saindo do nosso individual para o social. A gente partilha, se comunica, o tempo inteiro. Pelas falas de vocês, muito sensíveis, tenho certeza que aqui teremos um grupo grande de socializadores”.

“O que é importante pra gente socializar, educar?”, questionou. “Há pessoas que acham que pra gente socializar, basta a gente falar. Vou chegar e falar o que aprendi no curso. Será que basta a gente falar para que o outro se aproprie desse conhecimento? No fundo, a gente acha que pra educar basta fazer algo fora do indivíduo. Pode ser um texto, um áudio, um filme. Se fosse assim, a gente seria sabido demais, pois recebemos isso o dia inteiro”, explicou. E afirmou que, geralmente, nos esquecemos do que aprendemos pelo medo. “Ou esquecemos ou não conseguimos associar com outras coisas. Mas o que aprendemos pelo desejo fica”.

Seguiu explicando que, quando a gente vai socializar, uma das coisas mais importantes é conhecer o outro. “Se eu não conhecer o outro, seja meu colega, meu aluno, vou correr o risco de falar e não bater nada”. E contou uma história. “Uma vez, fui fazer uma dinâmica para discutir cidadania e os idosos, me preparei muito, acabei descobrindo um livrinho maravilhoso, A Pedra e a Arte, de Eduardo Galeano, um livro pra crianças. Na capa tem o desenho de um velhinho abraçando uma criança. Na história, tinha o Cara Suja, um menino levado da breca, que estava com vontade de comer maçã e falou ‘vou roubar uma maçã daquele pomar’, mas lembrava que o dono do pomar era um velhinho muito feio, corcunda, com muitas rugas, sem dentes, então as crianças achavam que ele era um bruxo. Ele sobe no muro e quando vê o velhinho de longe caiu, achou que ia apanhar. O velhinho acolheu, cuidou do machucado e o menino vai embora muito feliz. Ele vai embora e vê uma pedra, que tinha escrito: ‘jovem serás se és velhinho, se me quebrar em pedacinhos’. Ele lembrou do velhinho. Quando chega lá, o velhinho ouve isso com tristeza, e começa a chorar. O velho contou sua história. ‘Esses dentes não caíram, foram arrancados, essas rugas, manco porque quebrei a perna pulando o muro da prisão, essas marcas são minha história, não quero esquecer, se quebro a pedra vou trair essa história’. O velho era um antigo militante político que havia sido preso e torturado. Mas eu cheguei pra minha turma de idosos com essa história, perguntando se eles quebrariam a pedra, e todos falaram que sim. Minha estratégia dançou, porque idealizei uns velhos que não respondiam à realidade. A gente vai sem conhecer as pessoas, achando que vai entender”.

“É importante partir de onde os alunos estão”

Seguiu com outra reflexão bonita, esta do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão, que fala sobre escolaridade, sabedoria e inteligência. “Certo dia, ele estava em um trabalho de campo, e encontra um lavrador capinando, o Ciço. Chega o antropólogo para conversar com ele. Perguntou: ‘Ciço, o que é educação pra você?’ A resposta foi: ‘O senhor fala educação, eu falo educação. A palavra é a mesma, a pronúncia é uma só, mas é a mesma coisa? É do mesmo que a gente fala? Eu penso que não. O sentido é outro, pelas nossas histórias. A caneta é muito pesada pra quem está acostumado com a enxada. Quando o senhor chega e diz educação vem do seu mundo, quando eu falo, vem de outro lugar, da vida do pobre. Pra você, essa palavra vem junto de escola, daquele professor fino, caderno novo, caneta, tudo separado, cada coisa do seu jeito. Um estudo que cresce e vai muito longe de um saberzinho de alfabeto’. Isso é sabedoria. A mensagem é que todo mundo pode aprender, o importante é saber que cada palavra vem de um lugar, tem uma história. Quando eu falo pensamento, vem de outro mundo”.

Ausônia usou essa passagem para começar falar em educação em Direitos Humanos. “Eu pergunto: o Ciço teve direito à educação? Qual educação? Por isso é tão importante partir de onde os alunos estão. Não adianta a gente vir falar em direitos se eles têm outra vida, outras motivações. Tem estudos que mostram isso, que as palavras são as mesmas, mas os significados são completamente distintos. O ponto fundamental quando quero compartilhar com alguém é saber de onde vem esse alguém, qual a vivência dele, de que lugar ele está falando. Somos iguais, mas não idênticos”.

Lembrou-se de outra história em que um fator externo afetou o aprendizado das crianças. “Há alguns anos, o então prefeito de Santos, Davi Capistrano, foi ver os resultados do primeiro ano de gestão e 54% das crianças reprovavam, em todos os ciclos. Os burocratas botaram a culpa nos alunos, que não se esforçavam, não estudavam. Ele ficou tão indignado que não havia uma resposta que fez uma loucura. Fez um concurso relâmpago de pessoas que não precisavam ter diploma de Pedagogia, mas queriam ensinar e se sentir desafiadas, para que em dois meses mostrassem se as crianças eram ou não capazes de aprender. Ele fez uma seleção e começou a entrevistar candidatos. Perguntou: ‘como você imagina que são os pais das crianças que reprovam?’ Se a resposta era ‘ah, esse povo do morro, maloqueiro, maconheiro’, esses eram reprovados. Quem respondia ‘ah, são trabalhadores como nós’ era aprovado. Ou seja, ele selecionou pela pessoa ser ou não preconceituosa. Se o professor for preconceituoso, a criança não vai aprender. Tinha um senhor que era balconista e sempre quis ser professor, foi selecionado. Pegou um globo pra ensinar geografia, mostrou Santos no mapa e falou: ‘Santos se relaciona com o mundo aqui, aqui’, as crianças viram e entenderam. Levaram as crianças ao Aquário de Santos, elas nunca tinham ido, uma menina que tinha reprovado em Português ficou fascinada pelo peixe elétrico, e fez uma redação maravilhosa sobre o peixe elétrico”.

A professora lembrou ainda que muita gente acha que aprendemos com algo externo, o estímulo, como se fosse automático. “É um jeito mecânico de ver. Mas o que realmente leva a gente a aprender? O mais importante é a motivação. A gente traduz por nossas necessidades, por isso é importantíssimo nos conhecermos bem, o autoconhecimento”. Explicou também que as aprendizagens pelo desejo são muito mais duradouras. “Quando aprendemos pelo medo, usamos só em uma situação. Quando aprendemos pela vontade de fazer aquilo, você vai transferir habilidades que aprendeu ali para outras circunstâncias. Temos que ver as dificuldades como desafios, não como obstáculos. Se olhar como obstáculo, você desiste. Mas isso não basta. Há outro repertório, o cognitivo. A memória é importante, mas os conceitos, princípios, até algumas regras, são fundamentais para não sobrecarregar a memória. A aprendizagem mecânica é adquirida por todos nós, mas a gente erra ao achar que a memorização chega”.

“Nada é de graça na educação, tudo é conquista”

O uso de histórias de sua longa trajetória como educadora manteve os alunos atentos e engajados na aula da professora Ausônia. A todo momento, perguntavam e lembravam de alguma história pessoal que tinha a ver com a narrativa. Mas ainda havia mais uma história emocionante para ela contar. “Nada é de graça na educação, tudo é conquista. Nunca desisti de nenhum aluno, e às vezes temos uma alegria como a que vou compartilhar. Outro dia, fomos na FAAP levar uns alunos, e vejo um rapaz me chamando, e falou: ‘essa sempre acreditou em mim e por isso estou aqui e não estou preso’. Quando eu estava no colégio Experimental da Lapa, que foi fechado na ditadura, esse menino batia carteira na Rua Clélia, e esse colégio aceitava alunos pobres e alunos que eram repetentes nas escolas particulares. Esse menino era um deles. Volta e meia alguém falava ‘fulano foi preso de novo’, e lá ia eu na delegacia, falava pro delegado que eu estava fazendo um trabalho com esse menino e se ele ficasse preso ia acabar o trabalho. E, lá na FAAP, ele falou: ‘ela ia atrás de mim até na delegacia, e por isso agora sou professor aqui’. Se a gente não deixar claro que ele tem condições de se desenvolver, isso não acontece por milagre. Ninguém precisa ser herói, mas ter no seu cotidiano coerência com os valores que você escolhe ao ser socializador. Tenho muitos casos de alunos com uma história bem bonita”.

 

Encerrou agradecendo a todos, “pela generosidade, pela escuta”, afirmado que “foi importante esse contato pra mim”. E deixou uma fala final de Paulo Freire. “Ele dizia que nós, que queremos socializar conhecimentos, devemos ter três tipos de paciência. Uma paciência histórica, não vai ser em um dia que todos vão defender os direitos humanos, paciência pedagógica, cada um tem seu ritmo para aprender, e pode aprender de formas diferentes, e por fim, uma paciência afetiva. Não posso gostar do outro só porque ele é parecido comigo, e sim pelo afeto mesmo. Não temos o direito de termos conhecimento e não compartilhá-los, temos que eticamente passar pra frente”, novamente emocionando com a voz embargada e recebendo aplausos de pé de todos os presentes.

 

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