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Lista de Livros: Sobre a liberdade (Parte I) – John Stuart Mill

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Lista de Livros: Sobre a liberdade (Parte I) – John Stuart Mill

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-8285-046-6

Tradução: Paulo Geiger

Opinião: regular

Páginas: 222

“O “povo” que exerce o poder nem sempre coincide com as pessoas sobre o qual ele é exercido, e o “autogoverno” de que se fala não é o governo de cada um por si mesmo, mas de cada um por todos os outros. A vontade do povo, além disso, quer dizer na prática a vontade da mais numerosa ou mais ativa parte do povo; a maioria, ou aqueles que conseguem se fazer aceitos como a maioria; o povo, consequentemente, pode desejar oprimir uma parte de si mesmo; e contra isso são necessárias muitas precauções, assim como qualquer outro abuso de poder. Portanto, as limitações do poder do governo sobre os indivíduos não perdem nada de sua importância quando os detentores desse poder têm de prestar regularmente contas à comunidade, isto é, à sua facção mais forte. Essa maneira de ver, que se impõe igualmente à inteligência dos pensadores e à inclinação das classes importantes da sociedade europeia para cujos interesses reais ou supostos a democracia é adversa, não teve dificuldade em se estabelecer; e nas especulações políticas “a tirania da maioria” é agora geralmente incluída entre os males contra os quais se requer que a sociedade se ponha em guarda.”

*

“Tudo que faz a existência ser valiosa para qualquer pessoa depende da imposição de limites às ações de outras pessoas. Algumas regras de comportamento, portanto, devem ser impostas, em primeiro lugar em forma de lei, e em forma de opinião em muitas coisas que não constituem matéria suscetível à ação da lei. Quais devem ser essas regras é a principal questão entre os assuntos humanos; mas, se excetuamos alguns dos casos mais óbvios, este é um daqueles em que houve menos progresso em sua resolução.”

*

“O princípio prático que as orienta em suas opiniões sobre a regulação da conduta humana é a percepção na mente de cada um de que todos são requeridos a agir da maneira que ela, e aqueles com quem ela simpatiza, gostariam que agisse. Ninguém, na verdade, admite para si mesmo que seu padrão de julgamento é de seu próprio agrado; mas uma opinião em questões de comportamento que não é sustentada pela razão só pode contar como preferência de uma pessoa; e, quando as razões, na medida que oferecidas, são mera alegação de uma preferência semelhante por parte de outras pessoas, ainda será somente aquilo que agrada a muitas pessoas em lugar de a uma só. Para um homem comum, no entanto, com tal apoio, sua própria preferência não é apenas uma razão perfeitamente satisfatória, mas a única que em geral ele tem quanto a suas noções de moralidade, gosto ou propriedade que não estejam registradas por escrito em seu credo religioso, e é seu guia principal na interpretação até mesmo deste último. De acordo com isso, as opiniões dos homens sobre o que é louvável ou censurável são afetadas por todas as multíplices causas que influenciam o que querem em relação ao comportamento dos outros, e são tão numerosas quanto as que determinam o que eles querem em relação a qualquer outra questão. Algumas vezes, sua razão, outras vezes seus preconceitos e superstições; frequentemente suas disposições sociais, não raro as antissociais, sua inveja ou ciúme, sua arrogância ou insolência; porém mais comumente seus desejos ou temores por si mesmos — seu legítimo ou ilegítimo interesse próprio. Onde quer que haja uma classe em ascensão, grande parte da moralidade do país emana de seus interesses de classe e do sentimento de superioridade dessa classe. A moralidade entre espartanos e hilotas, entre proprietários de terras e negros, entre príncipes e súditos, entre nobres e roturiers*, entre homens e mulheres, tem sido em sua maior parte criação desses interesses e sentimentos de classe; e os sentimentos assim criados reagem, por sua vez, aos sentimentos morais dos membros da classe ascendente, em suas relações entre si. Por outro lado, onde uma classe, antes ascendente, perdeu essa ascendência, ou onde sua ascendência é impopular, os sentimentos morais prevalentes muitas vezes carregam uma impressão de desdém impaciente com ares de superioridade. Outro grande e determinante princípio das regras de conduta, tanto na ação como na omissão, imposto pela lei ou pela opinião, tem sido o servilismo do gênero humano ante as supostas preferências ou rejeição de seus senhores seculares, ou de seus deuses. Esse servilismo, conquanto que essencialmente egoísta, não é hipocrisia; suscita sentimentos perfeitamente genuínos de repulsa; fez com que homens queimassem feiticeiros e hereges. Entre tantas influências mais mesquinhas, os interesses gerais e óbvios da sociedade tiveram, é claro, um viés, e muito grande, na direção dos sentimentos morais; menos, contudo, como uma questão da razão, e por sua própria conta, do que como consequência das simpatias e antipatias que deles surgiram e cresceram: e simpatias e antipatias que tinham pouco ou nada a ver com os interesses da sociedade se fizeram sentir com uma força considerável no estabelecimento das moralidades.

Os gostos e desgostos da sociedade, ou de alguma parte poderosa dela, constituem assim o principal fator que praticamente determinou as regras estabelecidas para a observância geral, sujeitas às penalidades da lei e da opinião. E, em geral, aqueles que estiveram na vanguarda da sociedade no pensamento e na percepção deixaram esse estado de coisas em princípio inalterado, por mais que possam ter entrado em conflito com ele em alguns de seus detalhes. Eles se ocuparam mais em inquirir de que coisas a sociedade deveria gostar ou desgostar do que em questionar se seus agrados e desagrados deveriam se constituir em lei sobre os indivíduos. Preferiram se empenhar em alterar os sentimentos dos homens nos pontos específicos nos quais eram heréticos do que em criar uma causa comum em defesa da liberdade, geralmente com os heréticos. O único caso no qual o nível mais elevado foi tomado como princípio e mantido com consistência por mais do que um indivíduo isolado aqui e ali foi o da crença religiosa: é um caso instrutivo de muitas maneiras, não menos instrutiva aquela que forma uma chocante visão da falibilidade disso que se chama senso moral: porque o odium theologicum** de um fanático sincero é um dos casos mais inequívocos de sentimento moral. Aqueles que primeiro romperam o jugo daquela que se intitulou igreja universal geralmente tinham tão pouca vontade de permitir diferenças de opinião religiosa quanto a própria Igreja. Mas, quando o calor do conflito tinha passado, sem uma vitória completa de qualquer dos lados, e cada igreja ou seita foi reduzida a limitar suas esperanças e a se satisfazer em manter a posse do terreno que já ocupavam, as minorias, ao constatar que não tinham chance de se tornar maiorias, viram-se obrigadas a pedir àqueles que não tinham conseguido converter permissão para divergir. É em função desse campo de batalha, e quase que somente dele, que os direitos do indivíduo contra a sociedade foram assegurados em amplos fundamentos de princípio, e o pleito da sociedade de exercer autoridade sobre as dissensões, abertamente contrariado. Os grandes escritores aos quais o mundo deve o tanto de liberdade religiosa de que usufrui asseguraram a liberdade de consciência como um direito praticamente irrevogável e contestaram em termos absolutos que um ser humano tenha de prestar contas a outros por sua crença religiosa. No entanto, para a humanidade é tão natural a intolerância para com qualquer coisa com que realmente se importe que a liberdade religiosa na prática quase não foi implementada onde quer que seja, exceto onde a indiferença religiosa, que não gosta de ver sua tranquilidade perturbada por disputas teológicas, acrescentou seu peso à balança. Nas mentes de quase todas as pessoas religiosas, mesmo nos países mais tolerantes, o dever da tolerância é admitido com tácitas reservas. Uma pessoa pode estar disposta a tolerar controvérsias em questões de governo da Igreja, mas não do dogma; outra pode tolerar qualquer um, exceto um papista ou um unitarista; outra, qualquer um que acredite numa religião criada por revelação divina; alguns estendem sua caridade um pouco além, mas se detêm na crença em Deus e na imortalidade da alma. Onde o sentimento da maioria ainda é genuíno e intenso, nota-se que pouco reduziu seu pleito de ser obedecido.”

*: Plebeus, campônios.

**: Em latim, “ódio religioso”.

*

“O objetivo deste ensaio é asseverar um princípio muito simples, destinado a condicionar totalmente os tratos da sociedade com o indivíduo, sejam de compulsão e controle, seja por meio da força física na forma de penalidades legais, seja como coerção moral por parte da opinião pública. Esse princípio é o de que a única finalidade para a qual a humanidade está autorizada, individual ou coletivamente, a interferir na liberdade de ação de qualquer de seus membros é a autoproteção. Que o único propósito para o qual o poder pode ser exercido com justiça sobre qualquer membro da comunidade civilizada, contra sua vontade, é o de evitar dano a outros. A finalidade de seu próprio bem, físico ou moral, não é suficiente para conferir essa autorização. Ele não pode, sem que se cometa injustiça, ser compelido a fazer ou abster-se de fazer algo porque será melhor para seu próprio interesse agir assim, porque isso o fará mais feliz, porque, na opinião de outros, seria uma ação sábia, ou mesmo justa. Essas são boas razões para repreendê-lo, ou para ponderar com ele, ou para persuadi-lo, ou para suplicar-lhe, mas não para forçá-lo, ou castigá-lo com algo ruim caso aja de outro modo. Para justificar isso, o comportamento que se deseja evitar que ele tenha deve, na medida em que se possa calcular, causar algum mal a outra pessoa. O único aspecto do comportamento pelo qual ele é obrigado a fazer concessões à sociedade é o que diz respeito a outras pessoas. No aspecto que diz respeito apenas a si mesmo, sua independência é, por direito, absoluta. Sobre si mesmo, seu próprio corpo e sua mente, o indivíduo é soberano.

Talvez nem seja necessário dizer que se tem essa doutrina como aplicável somente a seres humanos plenamente maduros em suas faculdades. Não estamos falando de crianças, ou de jovens com idade inferior à fixada por lei para se considerar adulto um homem ou uma mulher. Aqueles que ainda estão num estágio de desenvolvimento em que se requer que sejam cuidados por outros devem ser protegidos contra suas próprias ações, assim como de danos causados por fatores externos. Pela mesma razão, não devemos levar em conta esses estágios atrasados da sociedade nos quais a raça humana pode ser considerada como em seus primórdios. As primeiras dificuldades no caminho de um progresso espontâneo são tão grandes que raramente tem-se a opção de meios para superá-las; e um governante comprometido com a melhora da sociedade fica autorizado ao uso de quaisquer expedientes que o levem a atingir esse objetivo, de outra maneira talvez inatingível. O despotismo é um modo legítimo de governar quando se tem de tratar com bárbaros, desde que visando a seu aprimoramento, e que os meios se justifiquem por efetivamente levarem a esse fim. A liberdade, como princípio, não se aplica a nenhum estado de coisas anterior ao tempo em que a humanidade se tornou capaz de ser aprimorada através de um debate livre e igualitário. Até então, nada restava para os homens além de, implicitamente, prestar obediência a um Akbar ou um Carlos Magno, se tivessem a sorte de encontrarem algum. Mas, assim que a humanidade adquiriu a capacidade de ser conduzida ao seu próprio aprimoramento por meio de convencimento e persuasão (um longo período até ser alcançado por todas as nações que aqui devemos considerar), a coação, seja na forma direta, seja na de penas e punições por desobediência, não é mais admissível como meio de obter seu próprio bem, e só é justificável para a segurança dos outros.”

*

“Há uma esfera de ação na qual a sociedade, ao contrário do indivíduo, só tem interesse indireto, se é que tem algum; ela abrange toda a parte da vida e do comportamento de uma pessoa que afeta somente a si mesma, ou, se também afetar outras pessoas, será somente com seu livre, espontâneo e inequívoco consentimento e participação. Quando eu digo “somente a si mesma” estou querendo dizer “diretamente a si mesma”, e em primeira instância; pois tudo que a afeta pode afetar outros por intermédio dela; e a objeção que possa se fundamentar em tal contingência será considerada mais adiante. Este é, portanto, o âmbito apropriado da liberdade humana. Compreende, em primeiro lugar, o domínio interior da consciência; exigindo liberdade de consciência em seu sentido mais abrangente; liberdade de pensamento e de sentimento; liberdade absoluta de opinião e de sentimento em relação a todas as questões, práticas ou especulativas, científicas, morais ou teológicas. Pode parecer que a liberdade de expressar e tornar públicas opiniões enquadra-se sob um princípio diferente, uma vez que pertence à parte do comportamento individual que diz respeito a outras pessoas; mas, tendo quase a mesma importância que a própria liberdade de pensamento, e se apoiando em grande parte nas mesmas razões, é praticamente inseparável desta. Em segundo lugar, este princípio requer liberdade de gostos e de propósitos; de configurar o plano de nossa vida de modo a se adequar a nosso próprio caráter; de fazer o que queremos fazer, sujeitando-nos às consequências que se possam seguir: e sem o impedimento de nossos semelhantes, enquanto o que fazemos não os prejudicar, mesmo que considerem nosso comportamento tolo, perverso ou errado. Em terceiro lugar, dessa liberdade de cada indivíduo advém a liberdade, dentro dos mesmos limites, de combinação entre os indivíduos; liberdade de se unirem para qualquer propósito que não acarrete dano a outros; desde que as pessoas que fazem tal combinação sejam adultas, e não estejam sendo forçadas nem enganadas.

Nenhuma sociedade na qual essas liberdades não sejam respeitadas em seu todo será livre, qualquer que seja sua forma de governo; e não será completamente livre nenhuma sociedade na qual elas não existam de maneira absoluta e irrestrita. A única liberdade que faz jus a esse nome é a de perseguir nosso próprio bem ao nosso próprio modo, sem tentar privar os outros do seu, ou impedir seus esforços para obtê-lo. Cada um é o guardião apropriado de sua própria saúde, seja corporal, seja mental ou espiritual. A humanidade terá mais a ganhar com mútua tolerância para que cada um viva de acordo com o que lhe parece melhor para si mesmo do que impondo a cada um que viva como parece melhor a todos os outros.”

*

“Nunca podemos ter certeza de que a opinião que tentamos reprimir é falsa; mesmo que tivéssemos certeza, reprimi-la seria um mal mesmo assim.”

*

“Nunca é demais lembrar à humanidade que existiu uma vez um homem chamado Sócrates, e que entre ele e as autoridades legais e a opinião pública de seu tempo houve uma colisão memorável. Nascido numa época e num país em que abundava a grandeza individual, esse homem nos foi apresentado por aqueles que melhor o conheciam, e a sua época, como o mais virtuoso dos homens que nela viveu; enquanto nós o conhecemos como o líder e o protótipo de todos os subsequentes mestres de virtude, a fonte tanto da majestosa inspiração de Platão como do utilitarismo judicioso de Aristóteles, “I maëstri di color che sanno”*, os dois principais mananciais da ética e de todas as outras filosofias. Esse reconhecido mestre de todos os pensadores eminentes que viveram desde então — cuja fama, ainda crescendo depois de mais de 2 mil anos, se sobrepõe a de todos os outros nomes que fazem tão ilustre sua cidade natal — foi levado à morte por seus compatriotas, após uma condenação judicial por impiedade e imoralidade. Impiedade, por negar os deuses reconhecidos pelo estado; de fato, seu acusador afirmou (ver a Apologia)** que ele não acreditava em nenhum deus. Imoralidade, por ser, com suas doutrinas e ensinamentos, um “corruptor da juventude”. Há todo fundamento para crer que foi dessas acusações que o tribunal honestamente o considerou culpado, e condenou o homem que, provavelmente de todos os nascidos então, merecia o melhor que a humanidade pudesse oferecer em vez morrer como um criminoso.

Passando desta para outra única instância de iniquidade judicial cuja menção, após a da condenação de Sócrates, não seria um anticlímax: o evento que teve lugar no Calvário há mais de 1800 anos. O homem que deixou na memória dos que testemunharam sua vida e seu discurso uma tal impressão de grandeza que os dezoito séculos subsequentes o celebraram como o Todo-Poderoso em pessoa foi ignominiosamente levado à morte como o quê? Como um blasfemo. Os homens não somente se enganaram com seu benfeitor; eles o confundiram com exatamente o contrário do que era, e o trataram como sendo esse prodígio de impiedade em que eles mesmos são tidos pela maneira como o trataram. Os sentimentos com que a humanidade hoje encara essas lamentáveis transações, em especial a segunda, a torna extremamente injusta em seu juízo sobre seus infelizes atores. Estes não foram, para todos os efeitos, homens ruins — não piores do que os homens comumente são, pelo contrário: eram homens que possuíam em medida total, ou algo mais do que em medida total, os sentimentos religiosos, morais e patrióticos de seu tempo e sua gente; exatamente o tipo de homens que, em todos os tempos, inclusive o nosso, têm todas as chances de passar pela vida respeitados e sem serem acusados de nada. O sumo sacerdote*** que rasgou suas vestimentas quando foram pronunciadas as palavras que, de acordo com todas as ideias do país, se constituíam na mais negra das culpas, estava sendo muito provavelmente tão sincero em seu horror e sua indignação quanto a generalidade dos homens respeitáveis e pios é hoje nos sentimentos morais e religiosos que professa; e em sua maioria aqueles que agora estremecem ante o comportamento dele, se tivessem vivido em seu tempo e nascido judeus, teriam agido exatamente como ele. Cristãos ortodoxos que são tentados a pensar que aqueles que apedrejaram até a morte os primeiros mártires devem ter sido piores do que eles devem se lembrar que um desses perseguidores foi são Paulo****.

Acrescentemos mais um exemplo, o mais eloquente de todos, se for medida a magnitude de um erro pela medida da sabedoria e de virtude que nele incide. Se alguma vez alguém que detinha o poder teve fundamentos para se imaginar o melhor e mais ilustrado entre seus contemporâneos, esse alguém foi o imperador Marco Aurélio. Monarca absoluto de todo o mundo civilizado, ele preservou ao longo de toda a sua vida não somente a mais impoluta justiça, mas, o que era menos de se esperar de sua criação estoica, o mais terno dos corações. As poucas falhas que atribuímos a ele foram todas relacionadas a sua indulgência — seus escritos, o mais elevado produto ético da mentalidade antiga, diferem de forma quase imperceptível, se é que diferem, dos mais característicos ensinamentos de Cristo. Esse homem que em tudo, menos na percepção dogmática do mundo, era um cristão melhor do que quase todos os soberanos ostensivamente cristãos, perseguiu o cristianismo. Situado no topo de todas as conquistas anteriores da humanidade, com uma mentalidade aberta, não acorrentada, e um caráter que o levou, por si mesmo, a personificar em seus escritos morais o ideal cristão, ainda assim ele não conseguiu ver que o cristianismo, com seus deveres, nos quais ele estava tão profundamente envolvido, era para ser um bem e não um mal para o mundo. Ele sabia que a sociedade existente se achava num estado deplorável. Mas de acordo com o que ele via, ou pensava que via, o que a mantinha e evitava que se tornasse pior era a crença e a reverência às divindades aceitas. Como um governante da humanidade, ele considerou seu dever não permitir que a sociedade se fragmentasse; e não via como, se fossem removidos os laços existentes, poderiam se formar quaisquer outros que de novo a manteriam unida. A nova religião visava abertamente a desfazer esses laços; a menos, portanto, que fosse seu dever adotar essa religião, parecia seu dever subjugá-la. Assim, visto que a teologia do cristianismo não lhe parecia ser verdadeira ou de origem divina; visto que essa estranha história de um Deus crucificado não era para ele crível, e um sistema que parecia repousar sobre um fundamento em sua opinião totalmente inacreditável não poderia ser visto por ele como aquele agente renovador que, depois de todos os descontos, de fato mostrou que era; o mais gentil e mais amável dos filósofos e governantes, movido por um solene senso de dever, autorizou a perseguição ao cristianismo. Em meu entendimento, trata-se de um dos mais trágicos fatos de toda a história. É um pensamento amargo, o de quão diferente o cristianismo do mundo poderia ter sido se a fé cristã tivesse sido adotada como religião do império sob os auspícios de Marco Aurélio e não os de Constantino. Mas seria igualmente injusto e não corresponderia à verdade negar que nenhum argumento que possa ser invocado para punir ensinamentos anticristãos foi invocado por Marco Aurélio para punir, como ele o fez, a propagação do cristianismo. Nenhum cristão acreditava que o ateísmo fosse falso, e tendesse à dissolução da sociedade, mais do que Marco Aurélio acreditava nas mesmas coisas, só que em relação ao cristianismo — ele que, de todos os homens então viventes, deveria ser o mais apto a apreciá-lo. A menos que alguém que aprove a punição pela promulgação de opiniões possa se orgulhar de ser um homem mais sábio e melhor do que Marco Aurélio — mais profundamente versado na sabedoria de seu tempo, mais sério em sua busca pela verdade, ou mais coerente em sua devoção a ela uma vez encontrada —, então que se abstenha de tal suposição de uma infalibilidade conjunta, dele mesmo e da multidão, que o grande Marco Aurélio Antonino assumiu com tão desafortunada consequência.”

*: “Os mestres daqueles que sabem”, cf. Dante, Inferno, Canto IV, l. 131.

**: Platão, Apologia, 24b-c; o acusador foi Meleto.

***: Caifás, ver Mateus 26:65.

****: Ver Atos dos Apóstolos 7:58-8:84

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“Na verdade, o dito segundo o qual a verdade sempre triunfa sobre a perseguição que lhe fazem é uma dessas prazerosas falsidades que os homens repetem uma atrás da outra até serem consideradas lugares-comuns, mas que toda experiência refuta. A história está cheia de ocorrências nas quais a verdade é derrubada pela perseguição. Se não é suprimida para sempre, pode ser rechaçada por séculos. Para falar apenas de opiniões religiosas: a Reforma surgiu pelo menos vinte vezes antes de Lutero, e foi rechaçada. Arnaldo de Bréscia foi rechaçado. Frei Dolcino foi rechaçado. Savonarola foi rechaçado. Os albigenses foram rechaçados. Os valdenses foram rechaçados. Os lollardistas foram rechaçados. Os hussitas foram rechaçados. Mesmo após a época de Lutero, qualquer perseguição empreendida tinha sucesso. Na Espanha, na Itália, em Flandres, no Império Austríaco, o protestantismo foi erradicado — e, muito provavelmente, também seria na Inglaterra, se Maria da Escócia sobrevivesse, ou a rainha Elizabeth morresse. A perseguição sempre teve sucesso, salvo quando os heréticos eram um partido forte demais para serem efetivamente perseguidos. Nenhuma pessoa razoável pode duvidar de que o cristianismo poderia ter sido extirpado no Império Romano. Ele se espalhou, e se tornou predominante, porque as perseguições eram só ocasionais, duravam pouco tempo e foram separadas por longos intervalos de uma propaganda quase não contestada. É coisa de vão e antiquado sentimentalismo crer que a verdade, meramente como verdade, tenha qualquer poder inerente de proteção contra o erro, ou que prevaleça sobre a masmorra e a estaca. Os homens não são mais zelosos pela verdade do que frequentemente são pelo erro, e uma aplicação suficiente de penalidades legais, ou até mesmo sociais, em geral vai conseguir deter a propagação de ambos. A real vantagem que tem a verdade consiste em que, quando uma opinião é verdadeira, ela pode ser extinta uma, duas ou muitas vezes, mas no decorrer dos tempos em geral se encontrará quem a redescubra, até que uma de suas reaparições ocorra numa época em que, devido a circunstâncias favoráveis, ela escapa de ser perseguida até se firmar de modo a resistir a todas as subsequentes tentativas de suprimi-la.”

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“Na época atual, a superfície tranquila da rotina é frequentemente agitada por tentativas tanto de ressuscitar males do passado quanto de introduzir novos benefícios. O que se apregoa como um grande benefício do presente, a revivescência da religião, é sempre, nas mentes estreitas e não instruídas, e pelo menos na mesma intensidade, a revivescência da intolerância; e onde existe o forte e permanente fermento da intolerância nos sentimentos das pessoas, que sempre subsiste nas classes médias deste país, é preciso muito pouco para incitá-las a perseguir ativamente aqueles que nunca deixaram de considerar objetos merecedores de perseguição. Porque é isto — é a opinião que as pessoas abrigam e os sentimentos que acalentam a respeito daqueles que não têm as crenças que consideram importantes — que faz com que este país não seja um lugar de liberdade das mentes.”

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“Aqueles para quem essa reticência por parte de heréticos não é um mal deveriam considerar, em primeiro lugar, que em consequência disso nunca há um debate imparcial e meticuloso das opiniões heréticas; e que aqueles entre eles que não poderiam sustentar tal debate, embora possam ser impedidos de se espalharem, não desaparecem. Mas não são as mentes dos heréticos que estão mais deterioradas, e sim a proibição imposta a toda inquirição que não termine com as conclusões ortodoxas. O maior dano é o que atinge aqueles que não são heréticos e a quem todo o desenvolvimento mental é restringido com o raciocínio subjugado pelo medo da heresia. Quem pode calcular o que o mundo perde na multidão de intelectos promissores combinados com temperamentos tímidos, que não ousam acompanhar nenhum curso de pensamento atrevido, vigoroso, independente, por medo de que poderia levá-los a algo que se admitiria ser considerado irreligioso ou imoral? Entre eles podemos, ocasionalmente, ver algum homem de profunda consciência, de entendimento sutil e refinado, que passa uma vida inteira sofismando com um intelecto que não pode ser silenciado, e exaurindo todos os recursos da engenhosidade na tentativa de reconciliar as manifestações de sua consciência e de sua razão com a ortodoxia, coisa que talvez ainda não tenha conseguido levar a bom termo. Ninguém pode ser um grande pensador se não reconhecer que, como pensador, é seu dever primeiro ser fiel a seu intelecto, quaisquer que sejam as conclusões às quais possa levá-lo. A verdade ganha mais até com os erros de alguém que, com o estudo e o preparo necessários, pensa por si mesmo, do que com a verdade de opinião daqueles que só a mantêm porque não se dão ao trabalho de pensar. Não que seja somente, ou principalmente, para formar grandes pensadores que se requer a liberdade de pensar. Pelo contrário, ela é tão ou até mais indispensável para permitir a seres humanos medianos que atinjam a estatura mental que sejam capazes de atingir. Já houve, e pode haver novamente, grandes pensadores individuais num ambiente geral de escravidão mental. Mas nunca houve, nem haverá jamais, em tal ambiente, um povo intelectualmente ativo. Quando algum povo se aproximou temporariamente desse caráter, isso aconteceu porque o temor que a especulação heterodoxa inspirava foi interrompido por algum tempo. Quando existe uma convenção tácita de que princípios não devem ser discutidos, onde o debate sobre as maiores questões que dizem respeito à humanidade é considerado encerrado, não podemos esperar encontrar esse nível de atividade mental geralmente alto que fez serem tão notáveis alguns períodos da história. Sempre que a controvérsia não evitou que grandes e importantes temas fossem suficientes para despertar entusiasmo, a mentalidade do povo foi sacudida em suas bases, ou foi dado o impulso que eleva até mesmo as pessoas de intelecto mais comum a terem algo da dignidade dos seres pensantes.”

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“O segundo maior orador da Antiguidade, Demóstenes, deixou registrado que sempre estudava a argumentação do adversário com a mesma intensidade, se não maior, com que estudava a sua própria. O que Cícero adotava como meio de obter sucesso forense devia ser imitado por todos que estudam qualquer assunto com a intenção de chegar à verdade. Aquele que conhece apenas o seu lado do caso sabe pouco sobre ele. Seus argumentos podem ser bons, e pode ser que ninguém tenha sido capaz de refutá-los. Mas, se ele for igualmente incapaz de refutar os argumentos do lado contrário, se da mesma forma ignorar em que consistem, não terá fundamento para optar por qualquer das opiniões. A posição racional para ele seria a da suspensão do julgamento e, a menos que se satisfaça com isso, estará ou sendo conduzido pela autoridade ou adotando, como é prática generalizada no mundo, o lado para o qual sente mais inclinação. Nem será suficiente que ele ouça os argumentos dos adversários da boca de seus próprios mestres, apresentados segundo a interpretação deles, e acompanhados pelas refutações que têm a oferecer. Essa não é a maneira de fazer justiça aos argumentos, ou de trazê-los para um contato real com a própria mente. Ele precisa poder ouvi-los de pessoas que realmente acreditam neles; que os defendem com seriedade, e que dão o que têm de melhor nisso. Ele precisa conhecê-los em sua forma mais plausível e persuasiva; precisa sentir toda a força da dificuldade que a visão verdadeira tem de encontrar e tratar; de outra forma nunca vai estar de posse, ele mesmo, da porção da verdade que enfrenta e remove essa dificuldade. Noventa e nove entre cem dos que são tidos como homens instruídos estão nessa condição; mesmo aqueles que estão aptos a argumentar fluentemente por suas opiniões. Sua conclusão pode ser verdadeira, mas poderia ser falsa por qualquer motivo que conheçam: eles nunca se colocaram na postura mental daqueles que pensam de outra maneira ou consideraram o que essas pessoas poderiam ter a dizer; e consequentemente não conhecem, em qualquer dos sentidos próprios dessa palavra, a doutrina que eles mesmos professam. Não conhecem as partes dela que explicam e justificam todo o resto; as considerações que demonstram que um fato que aparentemente colide com outro pode se conciliar com ele, ou que, de duas razões aparentemente fortes, uma e não outra deva ser a preferida. São estranhos a toda essa parte da verdade que pesa na balança e decide para onde pende o julgamento de uma mente completamente informada; ela só é realmente conhecida por aqueles que deram atenção aos dois lados com equanimidade e imparcialidade, e se empenharam por ver as razões de ambos sob a mais intensa luz. Essa disciplina é tão essencial para uma verdadeira compreensão dos assuntos morais e humanos que se não existissem oponentes a todas as verdades importantes seria necessário imaginá-los, e supri-los com os mais fortes argumentos que o mais talentoso dos advogados do diabo pudesse conjurar.”

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“Se, no entanto, a insidiosa operação de manter ausente o livre debate, quando as opiniões aceitas são verdadeiras, fosse limitada a manter os homens ignorantes dos fundamentos dessas opiniões, seria possível pensar que isso é um mal intelectual, mas não moral, e não afeta o valor da opinião, sob o aspecto de sua influência sobre o caráter. O fato, no entanto, é que não só os fundamentos da opinião são esquecidos na ausência do debate, mas muito frequentemente o próprio significado da opinião. As palavras que a expressam deixam de sugerir ideias, ou sugerem apenas uma pequena parte do que sugeriam as originalmente empregadas para comunicá-las. Em vez de uma vívida concepção e uma crença viva, se tornam apenas umas poucas frases, guardadas por repetição; ou, se tanto, só a concha e a casca do significado são mantidas, e sua fina essência, perdida. O grande capítulo da história humana que esse fato ocupa e preenche não pode ser estudado, nem se pode meditar sobre ele com seriedade demais.

Ele é ilustrado na experiência de quase todas as doutrinas éticas e quase todos os credos religiosos. Todos são cheios de significado e vitalidade para aqueles que os originaram, e para os discípulos diretos de quem os originou. Seu significado ainda continua a ser sentido com uma força não diluída, e talvez seja evocado com uma consciência ainda mais plena, enquanto continua o esforço para dar à doutrina ou ao credo ascendência sobre outros credos. Finalmente, ele ou prevalece e torna-se a opinião geral, ou seu progresso cessa, e ele mantém posse do terreno que conquistou, mas para de se disseminar. Quando qualquer desses resultados se torna aparente, desfralda-se a controvérsia quanto ao assunto, e gradualmente ela vai morrendo. A doutrina ocupou seu lugar, se não como uma opinião aceita, como uma das admitidas seitas ou divisões de opinião: aqueles que a mantêm em geral a herdaram, não adotaram; e a conversão de uma doutrina para outra, sendo agora um fato excepcional, ocupa um espaço pequeno nos pensamentos de quem a professa. Em vez de ficar, como no início, em alerta constante, ou para se defender contra o mundo ou para trazer o mundo a eles, eles se calam em sua aquiescência, e nem ouvem, quando poderiam, os argumentos contra seu credo, nem perturbam dissidentes (se é que os há) com argumentos a seu favor. É desse momento que se pode datar o início do declínio do poder vívido da doutrina. Frequentemente ouvimos os defensores de todos os credos lamentando a dificuldade de manter nas mentes dos crentes uma percepção vivaz da verdade que nominalmente reconhecem, para que assim ela possa penetrar nos sentimentos e assumir um verdadeiro domínio de seu portador. Não há queixa de tal dificuldade enquanto o credo ainda está lutando por sua existência: mesmo os mais fracos combatentes percebem então pelo que estão lutando, e qual a diferença entre a sua e outras doutrinas; e nesse período de existência de cada credo não são poucas as pessoas que se deram conta de seus princípios fundamentais em todas as formas de pensamento, refletiram e consideraram em todas as suas implicações importantes, e experimentaram o pleno efeito sobre o caráter que a crença em tal credo é capaz de produzir numa mente completamente impregnada. Mas, quando passa a ser um credo hereditário, e que é recebido passiva e não ativamente — quando a mente já não é compelida, na mesma medida que aquela primeira, a exercitar suas forças vitais nas questões que sua crença lhe apresenta —, há uma tendência progressiva de esquecer tudo que envolve a crença exceto suas formulações mais formais, ou de lhe conceder um obtuso e letárgico assentimento, como se sua aceitação em confiança dispensasse a necessidade de compreendê-la em consciência, ou de testá-la pela experiência; até que ela quase deixa totalmente de se conectar com a vida interior do ser humano. É então que se veem os casos, tão frequentes nesta época do mundo a ponto de constituírem a maioria, nos quais o credo permanece como que externo à mente, incrustando-se e petrificando-se para se defender de todas as outras influências endereçadas aos mais altos níveis de nossa natureza; manifestando sua força ao não se deixar penetrar por qualquer convicção fresca e viva, mas nada fazendo pela mente ou pelo coração, exceto ficar de sentinela para mantê-los desocupados.”

 

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